segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Filosofia - Ascenso Ferreira

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Hora de comer — comer!

Hora de dormir — dormir!

Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!






Rafaela Valverde

Durante a aula


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Tem uma música antiga que minha mãe sempre cantarola: "não consigo prestar atenção na aula, não suporto mais o professor..." E assim estou hoje. Sala gelada, ar condicionado bem forte, mesmo com o casaco, meus dedos estão gelados. Olho para a professora lá na frente e penso que ela realmente tem propriedade sobre o que está falando. A partir desse momento começo a olhar para um ponto fixo atrás da professora, no quadro. Me desligo totalmente da aula, estou com sono. A professora começa a falar a línguas ininteligíveis. Até tento me concentrar, arregalo os olhos, bebo um gole de água, me espreguiço discretamente, mas tudo em vão...

Estou de calça jeans, daquelas que vão até o meio da canela, com a borda dobrada. Rasgada nos joelhos. Testo minha elasticidade puxando a perna esquerda, deixando- a dobrada, o joelho na altura do queixo. O braço esquerdo abraça a perna. Me sinto relaxada. A aula tá rolando, não sei o que a professora está falando... Olho para baixo e estou sem calça, você está com a cara entre minhas pernas, começando a me chupar. De leve. Como se tivesse encostando a língua em algo novo, cujo gosto ainda era desconhecido. Ainda assim, aquele gesto possuía a sua segurança. A segurança de quem já sabia onde ficava e como apertar todos os botões do meu corpo.

Volta e meia olhava para a professora, tentando entender o que realmente estava acontecendo com minha cabeça. Ao mesmo tempo você me dava aquele sorriso largo, safado. Revirei os olhos, me contorcia... Não estava mais conseguindo disfarçar. Sentia tanto tesão naqueles últimos dias e tanta falta de sentar e rebolar em você que já estou imaginando coisas... Levanto. Vou ao banheiro. Estou muito molhada, excitada. Saio da cabine e respiro fundo olhando para o espelho. Fecho os olhos em seguida e você está lá, me provocando, chupando os dedos da minha mão, um a um...

Volto para a sala, mas dessa vez sento de pernas cruzadas, para não te dar espaço, mas, mesmo assim você vem. Eu só consigo imaginar você com a língua dentro de mim, eu não sei mais como entender a matéria, como acompanhar o ritmo. Quarta feira de manhã, já isso! Longos minutos depois consegui afastar sua imagem da minha cabeça e consegui até participar da aula.

É por isso. Por isso que estou aqui de calcinha e robe vermelhos no seu portão. Vim de carro, ninguém repara nessas coisas. Abre o portão ou desce! Você escolhe. Mas decide logo porque eu tô perto de pegar fogo. E você não vai me deixar incendiando aqui em baixo no relento, não é? Prefiro me esparrar na sua cama e em todos os cômodos da casa...

Ouvi o estalido da fechadura se abrindo... É hoje!!




Rafaela Valverde

sábado, 18 de novembro de 2017

Ninguém mais pega buzu direto nessa joça!

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Ninguém anda mais como quer em Salvador. Sim, estou falando do transporte público. As pessoas, nós, soteropolitanos, estamos sendo obrigados a perambular pela cidade. E do jeito que o povo dessa cidade anda devagar, já viu, né? Como assim? Explico, apesar de as pessoas que são daqui já saberem do que vou falar...

Olha, eu não sei exatamente como se dá essa questão nas outras cidades. Mas o que ouço falar é que em nenhuma capital que tem metrô as pessoas são obrigadas a usar o modal. Aqui sim! Ninguém pode mais pegar ônibus direto. Sabe aquelas amizades de buzu? Aquelas matérias da TV, lembram? Que mostravam festas juninas e aniversários realizados dentro do ônibus? Não existem mais. Sabe aquela dormidinha faceira no trepidar do buzu? Acabou!

Agora somos obrigados a pegar um ônibus em nosso bairro, descer em um terminal de transbordo, acessar uma estação do metrô conectada ao terminal e pegar um metrô, descer em outra estação do metrô, sair e pegar outro ônibus, ou a depender da estação, outro metrô e só depois pegar o buzu e finalmente chegar ao nosso destino. Ufa! Cansei!

E nosso querido prefeito junto com sua equipe de bons entendedores de trânsito e transporte ainda dizem que é mais rápido e eficiente. Ah, integração maravilhosa! Você paga antes para usar o transporte - que é uma carniça, ônibus velhos, sujos, motoristas e cobradores imprudentes e não profissionais e  muito mais - depois de pagar antes, porque só com cartões é que existe integração e com eles a gente paga antes, colocando créditos, a gente passa por longas esperas, e todos os maus tratos que todo mundo já sabe e ainda temos que ficar que nem umas baratas tontas andando para lá e para cá atrás de metrô. Ah, me bata um abacate!

Linhas de ônibus estão sumindo, evaporando. E o que está sendo empurrado nossas goelas abaixo é que essa é uma mudança para o bem da população, que não foi ouvida. E os pululantes anúncios publicitários mentirosos, com atores sorridentes e felizes continuam mostrando o que não condiz com a verdade. Ninguém está satisfeito. Ou porque tem que andar demais da estação até o ponto mais próximo, ou porque os cartões não integram e acabam tarifando de novo (sim, porque ainda tem isso!) ou ainda porque os ônibus da bendita integração demoram demais... São inúmeros os motivos das insatisfações do povo, que só sabe reclamar dentro dos ônibus, mas na hora H oferece reeleição recorde ao prefeito... Aí fica difícil... Fora que ele nem cumpriu as promessas para o transporte público da primeira campanha que resultou no seu primeiro mandato de 2012 até 2016. Uma dessas promessas era que todos os ônibus, TODOS, teriam ar condicionado. Vocês lembram disso? Eu lembro perfeitamente! Alguém viu algum buzu com ar, a não ser os escassos e caríssimos expressos? Não? Nem eu!

Há quem diga que o prefeito tem algum tipo de acordo com os empresários do transporte público de Salvador. O ramo já vai mal há anos e quase não gera lucros. E essa foi a melhor solução que o prefeito arrumou para o problema? Massacrar os usuários que pagam pelo serviço? É isso? Se realmente for verdade - o que faz sentido já que se não há geração de lucros, pelo menos há economia com cortes de linhas, redução de itinerários e demissão de funcionários - o prefeito está dando tiros no pé, inclusive no que se refere a sua pretensa campanha  ao governo do estado em 2018.  Há quem diga também que ele, Antônio Carlos Magalhães Neto, vulgo o prefeito, quer "boicotar" o metrô, que foi implantado pelo governo do estado de Rui Costa do PT. Assim, os trens do metrô ficariam bem cheios, causando insatisfação no serviço. É o que a gente ouve por aí... Especulações à parte, o que eu sei é o que problema está aí e o que estamos fazendo além de reclamar e só reclamar? Nada. Sei também que por muito menos - e nisso incluo toda a situação política do nosso país - o gigante levantou em junho de 2013. Com todas aquelas manifestações. E agora? 




Rafaela Valverde

Lépida e leve - Gilka Machado

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Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
O verso não descreve...
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em seu labor,
gostos de afagos de sabor.


És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesmo acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.


Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!...
És o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.


Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!


— Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
— Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação,
és o elástico da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
— Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...


Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me veste quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...


Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inféria e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...


Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Livro Antes Feliz do que Mal Acompanhada - Emanuela Carvalho


Terminei de ler o livro Antes Feliz do que Mal Acompanhada de Emanuela Carvalho. O livro foi lançado no ano passado aqui em Salvador. Emanuela é baiana. Encontrei- o por acaso nas estantes de sugestões de leitura da Biblioteca Central dos Barris. Me interessei pelo título e texto da contracapa e trouxe. 

O livro traz histórias anônimas de 25 mulheres sobre relacionamentos abusivos, violências física, psicológica e sexual e todo o sofrimento vindo desses relacionamentos. Dá uma dor no coração ler algumas dessas histórias. A gente que é mulher sempre se vê em situações como essas, em que nosso amor próprio vai embora, expulso por nós mesmas. 

Muitas vezes, amamos mais o outro do que a nós mesmas e quase sempre a vida mostra nosso erro. Há no livro histórias de relacionamentos abusivos entre mulheres também, há filhos envolvidos, dor, lágrimas, tristeza, falta de amor próprio, juventudes destruídas... Há coisas demais. E quando a gente para e pensa que são casos reais (a autora se inspirou em casos reais para escrever as histórias) misturados a um pouco de ficção, claro. Mas quando a gente percebe quantas mulheres estão envolvidas nesse tipo de relação, mesmo que tentem esconder e mostrar para o mundo o quanto são felizes, a gente pensa: "poderia ser eu..." ou "antigamente eu também agiria assim, hoje mais não..." 

Querendo ou não a gente se vê ali. Quantas mulheres não foram e são enganadas até hoje por homens e mulheres também, que acham que são seus donos? Que são possessivos, controladores e mau caráter... São esses alguns dos pensamentos que vêm à mente enquanto lia esse livro. É triste e dói saber que ainda somos tratadas como as culpadas por esses abusos. Muitas vezes recriminadas e julgadas... Bom, é isso. O livro é bastante interessante, por trazer casos próximos da gente, são histórias daqui de Salvador e nos faz refletir...




Rafaela Valverde












Verbos sem ações, ações sem efeitos

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Eu sei que nada vai dar em nada. Nada que eu fizer, reclamações, denúncias, chiliques vão ser suficientes para resolver as coisas. No nível em que estamos nãos sei se ainda adianta bradar, gritar, questionar... Está tudo tão parado que só dá vontade de ficar parado também.

Antes, eu achava que podia mudar coisas, talvez não o mundo, porque ele já está assim há muito tempo e a coisa não é boa. Não mesmo. Quando ainda insisto em reclamar ou questionar algo que está bem ruim, recebo mensagens genéricas, mais trazendo discursos de como eles deveriam agir do que resposta e efetivas soluções para o que foi questionado.

Dá um cansaço, um desânimo, uma preguiça... A gente se sente desmotivada a continuar acreditando que possa ainda existir algum tipo de solução para o que quer que seja. Esquece, deixa como está. Não adianta ficar se  envolvendo nessas coisas... São coisas que ouço. Especialmente das pessoas mais velhas, que claro, já estão por aqui há mais tempo e sabem que não vai dar em nada... É provável que já tenham sentido na própria pele, a dor da decepção de que sua voz não vale de nada.

O gosto é amargo, azedo e injusto. Não existe coisa pior que receber respostas genéricas, que não levam a lugar nenhum. Não existe coisa pior do que ter seu grito abafado, gritar mudo. Grito único, pessoa sozinha, berrando à toa por coisas que nunca vão mudar. É frustrante. Dá uma tristeza, um súbito malquerer toma conta da gente. Dá vontade de sumir. E sabe por quê? Não apenas por uma resposta, mas por todo o conjunto. Tudo vai mal. Aliás, pode não ir totalmente mal, mas anda bem capenga. Tudo está sendo feito em vão. O que pode fazer com que eu pare de gritar, de falar, de reclamar, de orar, de pedir, de agradecer, de acreditar... Verbos ocos, esses. Ninguém mais acredita, Eu não mais acredito nas reais ações desses verbos.



Rafaela Valverde
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