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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Eu não conserto erros de português de ninguém!

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Sou professora de português em formação. Entrei porque queria escrever, produzir, pesquisar, quem sabe fazer mestrado e doutorado. Entrei ainda perdida, sem saber muito bem o que era a sala de aula. Hoje, já faço. Já estive em sala de aula. Não é coisa que eu abomino como achei que faria. Eu amo estar na sala de aula, como aluna e como professora. Quero ressaltar que eu gosto de estudar esse curso, mas antes dele fiz dois semestres de psicologia e odiei. Era uma tortura estar na sala de aula estudando aquelas coisas estranhas.

Mas agora me sinto realizada estudando a língua portuguesa, suas teorias, práticas, literaturas e gramáticas. Eu não sabia que nossa língua era assim tão encantadora. Claro que tem disciplinas que gosto mais e outras que gosto menos. Umas que estudo mais e outras não. Em qualquer lugar é sempre assim. Mas ainda assim, eu me encontrei porque agora posso realmente fazer o que gosto: escrever e estudar a língua. Sempre gostei de português e sempre tive muita facilidade. Eu quase nem estudava português na escola, porque pra mim vinha natural e com apenas assistindo as aulas eu conseguia entender. Fora que eu sempre amei ler e escrever.

E eu estou escrevendo isso por quê? Para que as pessoas compreendam que quanto mais a gente é apaixonado pelo que faz, mais a gente estuda e quanto mais estudamos menos tendemos a praticar preconceito linguístico. E mais uma vez, digo isso estou escrevendo todas essas coisas porque eu não vou corrigir ninguém. A não ser que a pessoa me peça. Até porque eu não estou ganhando para consertar as pessoas. 

Se depender de mim as pessoas vão continuar falando e escrevendo "errado" que eu não estou nem aí. A não ser que seja meu aluno, criança ou adolescente. Sendo adulto e não sendo meu aluno, eu não estou aqui para ficar praticando preconceito linguístico com ninguém. Tem gente que fica com medo de conversar comigo no Whatsapp para não escrever errado, achando que eu vou corrigir. E já ouvi relatos de outros estudantes de letras falando a mesma coisa.

Mas não tenham medo da gente. Nós não vamos te consertar. Pelo menos um bom estudante de letras e um realmente estudante não vai te consertar. Fiquem tranquilos, leiam, estudem que isso auxilia na melhoria da escrita. Não precisa que outras pessoas te consertem, não! É deselegante.



Rafaela Valverde

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Vida aleatória e sem sentido

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A vida é como um filme, ou talvez até uma série. Com vários episódios, uns bons, outros nem tanto. Vai alcançando ápices de conflitos, realizações e conquistas. Mas também há aqueles episódios decepcionantes, em que não acontece nada. E as temporadas sem emoção, sem nada bom. Parece que foram mal escritas. 

Séries são escritas por alguém e não são aleatórias. Seguem uma lógica, ou pelo menos deveriam. A vida já nasce sem lógica. Aleatória e sem sentido como já diria W. Somerset Maugham. Não sei porque nasci, nem quando vou morrer. Só sei que vou morrer em algum momento. E é isso que dá sentido à vida: a certeza de que um dia a morte vai chegar. Isso impulsiona a vivência. Afinal, é preciso aproveitar a vida, antes que tudo acabe e vire um vácuo escuro.

Tantas pessoas nesse mundo. Só em Salvador são quase quatro milhões de pessoas. Mais de sete bilhões no planeta e eu aqui querendo que alguma energia superior olhe por mim. Alguns preferem chamar essa energia de Deus. Eu também, às vezes, mas creio que essa força, essa fé que nos impulsiona a acreditar em alguma coisa está dentro da gente.

Se faz necessário crer em alguma coisa para sobreviver, para não surtar ou entrar em depressão. Daí a gente inventa a fé e inventa Deus. Assim, continuo com o exemplo das séries para ilustrar a vida. A gente precisa acreditar nos roteiristas, nos produtores e atores para compreender e aceitar os destinos dos nossos personagens preferidos. Tendemos a acreditar que os conflitos de cada episódio são a vontade do roteirista, assim como deixamos certas coisas a cargo de Deus, como se fossem seu desejo. E nem sempre temos a comprovação de que isso é realmente verdade. Não temos como comprovar nada. Mas precisamos acreditar. Desesperadamente. Alguma coisa precisa fazer sentido para que possamos aceitar melhor determinados fatos da vida, ou a falta deles.

Aí vem nossos questionamentos sobre a vida, sobre as coisas que a gente consegue ou não na vida, mesmo que peça, mesmo que implore, mesmo que faça promessas. Enquanto isso pessoas ordinárias vivem bradando suas vitórias. A gente começa a se perguntar o que está fazendo de errado e porque simplesmente as coisas não fluem e porque a gente não consegue felicidade, paz e calmaria. É tudo muito injusto e repito: aleatório e sem sentido. Dizem que as energias que lançamos ao universo voltam para a gente exatamente como lançamos, portanto quando ajudamos as pessoas, somos gentis, não fazemos maldade e somos positivos essas coisas deviam retornar para a gente com coisas boas. Mas não é bem isso que acontece. Bom, pelo menos não para mim, pelo menos quase sempre, porque as coisas quase sempre desandam e eu me pergunto diariamente sobre isso.

E por outro lado vejo que pessoas falsas, fofoqueiras, invejosas, mentirosas e com mau caráter se dão bem na vida, ou pelo menos aparentam estar muito bem. Aí eu me pergunto porque a vida não funciona como as séries, filmes, livros, etc., onde os mocinhos se são bem e vivem felizes e os vilões morrem ou vão presos e sempre se dão mal. Como gostaria que a vida fosse uma série.


Rafaela Valverde

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Livro Machado - Silviano Santiago - Parte II

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 Texto escrito para avaliação da disciplina O Cânone Literário Brasileiro do curso de Letras Vernáculas da UFBA, onde estudo.

Não há espaço para best-sellers, desses que lotam as linhas de frente das livrarias nos dias de hoje – na Academia Brasileira de Letras. Nem no cânone. Mas, o cânone pode ser bastante relativizado. Cada pessoa pode ter o seu e dessa forma, um best-seller pode estar presente. São possibilidades. Tudo é possibilidade. Nada é estanque, sobretudo no que tange ao conhecimento e a literatura.

Porém, é correto afirmar que o cânone existe, os cânones existem desse sempre. E são necessários, pois não há como ler todas as obras literárias lançadas no mundo.

O próprio Silviano Santiago se apropriou da ideia de cânone ao construir o livro. Ele utilizou as leituras do próprio Machado, como por exemplo, Flaubert – olha ele novamente – autor que estava presente com todas as suas obras na estante do escritor brasileiro. Além disso, havia a forte presença do romancista José de Alencar, amigo do morador do Chalé do Cosme Velho. Não tinha como falar de uma personalidade tão intensa, sem passar pela crítica literária. Além dos demais aspectos que envolvem a literatura hoje e na época em que viveu Machado de Assis. 

Autores desconhecidos também fazem parte do bem tecido emaranhado literário que é Machado. Mário de Alencar foi um deles. Mário era filho de José de Alencar e melhor amigo de Machado de Assis. Além disso, era seu discípulo e protegido, auxiliado pelo autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, na eleição para a cadeira na ABL.

Mas Machado não tinha muitos amigos, especialmente após a morte de Carolina, sua esposa portuguesa. Especialmente nos últimos anos com as crises epilépticas e as ausências, como ele chamava os desmaios, e vertigens. Essas crises afetavam a saúde de Machado e o faziam passar vergonha. Mas as enfermidades também o aproximou de Miguel Couto, ex médico de sua esposa. Doutor Miguel Couto passa a ser médico de Machado também, a partir do momento da primeira crise epiléptica e posteriormente de Mário de Alencar que passa a apresentar os mesmos sintomas do mestre, do pai espiritual que ele considerava.

A melancolia acompanhava o velho bruxo. Junto com as ausências e as convulsões. Ele não se afastava do trabalho, mesmo com os problemas de saúde. O que Silviano traz para o livro é o convívio de uma pessoa idosa com uma saúde frágil. Saúde que lhe oferecia diversas limitações. Na alimentação, na locomoção e até nos passeios que fazia, especialmente pela livraria Garnier. Silviano faz um paralelo com a sua própria vida de homem idoso, morando sozinho e convivendo com a melancolia. Como ele mesmo afirmou em uma de suas entrevistas, o romance é um romance de sobrevivência. Daqueles que trazem personagens em seus últimos momentos de vida. Assim é com Machado de Assis, assim é com o próprio Silviano. Pelo menos assim ele se colocou, do alto dos seus 81 anos, como alguém que estava em sobrevivência. Aí, mais uma vez, assim como em vários outros momentos do livro, narrador, autor e personagem principal de confundem como se fossem um só. E confundem também o leitor.

Quando lemos, às vezes, fica difícil saber quem está se pronunciando ali. Quem está desenvolvendo aquela ideia, aquela crítica ou quem está contando a vida de Machado de Assis. O Rio de Janeiro se transforma, se moderniza, fica parecida com Paris, enquanto personagens e estórias vão se desenrolando. É claro que a história não pode ficar de fora, sobretudo a história da cidade do Rio de Janeiro, que desde essa época já sofria com ação de bandidos. Com muitas notícias e imagens de jornais da época, podemos saber como funcionava a dinâmica da cidade da época. Por exemplo, na página 181 há o episódio do assalto à casa do doutor Miguel Couto na rua Senador Dantas. Objetos de valor da família são roubados e em plena a luz do dia. “Não falta policial nem sobre ladrão. Falta é policial que percorra as ruas, patrulhando a cidade.” Afirma o narrador. Atual, não?


Outros episódios dão conta ainda da falta de infraestrutura que tomava conta da cidade. Faltava água e as pessoas ansiavam por chuvas. As pessoas pobres, durante o processo de urbanização e modernização do centro foram expulsas para as partes mais altas da cidade. Olha as favelas nascendo!  Machado de Assis tinha assistia com desalento a mudança da sua cidade. Para o que ele considerava ser pior. A cidade do Rio de Janeiro e sua história não podiam ficar de fora de um livro que fala tão detalhadamente de um dos autores que mais retratou em suas obras, a cidade maravilhosa.

E por falar em suas obras, o livro de Silviano Santiago traz alguns detalhes sobre seu último livro: Memorial de Aires. A construção dos personagens e a comparação com outros personagens dele. Memórias Póstumas de Brás Cubas também é analisada da forma “silvianica”. Ele traz referências à ciência, à bíblia, à literatura mundial, à arte entre vários outros assuntos que são abordados nesse preciosíssimo livro.
O capítulo nove, penúltimo,  Manassés e Efrain começa indicando a pouca vida que ainda restaria a Machado. Últimos meses de vida que se encerra em 29 de setembro de 1908. Esse capítulo destrincha a amizade de Mário de Alencar e Machado de Assis, confirmando a ideia que o primeiro esteve com o segundo até o fim. Um era bastante leal ao outro e na página 339 há a seguinte passagem: “Mário de Alencar é o alter ego do velho Machado de Assis, em quem ele confia como não se confia em imagem no espelho.” Essa é a ideia que o narrador ou Silviano Santiago tem da amizade dos dois escritores. Claro que houve muita pesquisa e com certeza era uma amizade muito boa mesmo, com lealdade. Será que Silviano tem um Mário de Alencar em sua vida? A amizade é um dos temas mais presentes no livro do crítico literário.

Por fim, o capítulo dez, Transfiguração, Silviano relaciona as leituras realizadas por Machado ao conjunto de sua obra e sua vida. “Machado de Assis tem na biblioteca tudo o que Gustave Flaubert e Stendhal publicaram no século XIX.” (p.379). Várias outras questões são abordadas nesse capítulo, é claro que para saber é preciso ler o livro, não vou aqui me adentrar em todas elas. Apenas estou pontuando e tentando “comentar” – já que analisar seria muita audácia da minha parte – as que mais me chamaram atenção.  Para finalizar devo aqui registrar que o livro é aberto com a pintura Transfiguração, de Rafael e nesse capítulo, o último e de mesmo nome, Silviano faz uma pequena análise do quadro e o relaciona com as crises convulsivas de Machado. Uma das hipóteses que Silviano cria é que há um rapaz com crises epiléticas no quadro, olhando para Jesus, que flutua no centro na imagem. 

Como já havia dito, o livro é um emaranhado –  a meu ver organizado – de informações, de saberes, de questões a serem abordadas. Seriam necessários vários anos e várias teses para analisar detalhadamente a obra de arte chamada Machado. E ainda assim não se daria conta. Para além do romance, da biografia, do rinoceronte e da sobrevivência, o livro é um compilado de cânones. O livro nasceu para ser cânone e daqui há cinquenta anos com certeza ele e seu autor serão lembrados. Como não deixar esse livro ser cânone? Como não permitir que seja? Como afirmar que uns cânones não devam existir? Provavelmente não é possível, pois, essa obra já nasceu para ser cânone. Já nasceu para consolidar seu autor, idoso e sobrevivente solitário em seu apartamento cheio de livros, como autor canônico. Autor que deve ser lido. E com certeza será.



Rafaela Valverde



Livro Machado - Silviano Santiago - Parte I

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Texto escrito para avaliação da disciplina O Cânone Literário Brasileiro do curso de Letras Vernáculas da UFBA, onde estudo.


Machado é um romance que não é romance. Uma biografia que vai além dos fatos da vida de alguém. Ensaio que já é o espetáculo. Espetáculo protagonizado pelo mímico do Cosme Velho, Machado de Assis. Retratada já em sua fase final, a vida de Machado de Assis foi bastante complexa.

Descendente de escravos, Machado sempre viveu de forma humilde. Conviveu com a escravidão durante grande parte da sua vida, até a abolição. Esta temática esteve bastante presente em sua obra. O livro retrata, porém os últimos quatro anos da sua vida. A partir de cartas escritas entre 1905 e 1908, Silviano Santiago construiu a grande obra biográfico-ensaística-romanceada-pitoresca e rica.

Além de uma grande homenagem, Machado pode ser considerado um bom almanaque de literatura. E não só brasileira. E não só de literatura. Almanaque de história, crítica literária e dos últimos momentos da vida do Bruxo do Cosme Velho.

Como o próprio Silviano Santiago declarou em uma de suas entrevistas: não era possível escrever um livro simples sobre a vida de alguém tão complexo como Machado de Assis. Por isso, o livro tão multifacetado. Não dava para ser uma simples biografia narrando fatos da sua vida e descrevendo dados e anos. Um romance simples, porém, não bastaria. Fazia-se necessário um livro grandioso, para a posteridade.

É claro que a intenção de fazer um livro como esse não é apenas homenagear um grande escritor e o fundador da Academia Brasileira de Letras. Não. Silviano quer deixar para o futuro, algo de si mesmo. O que ele próprio sabe sobre literatura. Seu mestrado na França, ilustrado pelo grande conhecimento em Flaubert não deixa mentir. Além disso, inicia- se a consagração do escritor como cânone da sua geração. Já que Machado foi e ainda é um autor legitimado no Brasil e no mundo. Há ainda de lembrar que o processo de urbanização do Rio de Janeiro, fator que incomodava muito o Bruxo do Cosme Velho, se comparava desde sua composição ao processo de urbanização de Paris. Onde quem esteve? Silviano. Eles estão ligados. Silviano Santiago se liga a Machado. Sua ligação com o escritor está também no fato de que Silviano nasceu, anos depois, na mesma data de morte do mímico: 29 de setembro. Silviano estende seu vínculo. Ele se transporta para o início do século XX e teima em conviver bem próximo ao grande escritor brasileiro.

O livro traz diversas imagens, mas nem precisava: com a confusão organizada entre narrador, autor e personagens, a trama já se estampa. Com uma bem feita metalinguagem, o livro consegue narrar, com literatura, a própria literatura. Além disso, há a descrição detalhada da urbanização do Rio de Janeiro, com seus principais meandros e consequências sociais.

Como já sabemos o cânone ou os cânones são listas de leituras escolhidas e implementadas por alguém. E que esse alguém geralmente é formado por mais de uma pessoa ou até mesmo instituições. Principalmente as universidades e seus grandes doutores críticos. Há a certeza, é claro que essas pessoas e universidades estão imbuídas de poder. A ideia de cânone foi criada e consolidada ao longo da história ocidental. Quando a igreja mandava, o cânone existia para determinar o que os fieis podiam ler ou não. E quem mais já teve poder nesse mundo que a igreja? 

Machado de Assis está no cânone. Ouso até dizer que Machado é ele mesmo, um cânone. Além de escritor, já respeitado na sua época, funcionário Público nomeado pelo imperador, Machado foi também o fundador da Academia Brasileira de Letras, como todos nós já sabemos. Antes, os encontros literários eram realizados na livraria Garnier. Os encontros cresceram tanto que nasceu a academia. A própria ABL – um siglazinha carinhosa – já estabelece um cânone. A lista de cadeiras dos imortais que ali se encontram confirmam bem isso. A rejeição do desconhecido Mário de Alencar também.


Continua...


Rafaela Valverde

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Filme O sorriso de Monalisa

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Vi novamente no último final de semana o filme O sorriso de Monalisa. Eu não lembrava muito desse filme, pois já o tinha visto há algum tempo. Vi novamente por que chegou recentemente na Netflix e por que é sim um bom filme e ainda por cima Julia Roberts é a protagonista, a dona do sorriso. E como vocês todos sabem, eu sou fã desta atriz incrível.

Então, o filme é americano, lançado em 2003 e tem no elenco outras atrizes famosas como Kirsten Dunst .... (Betty Warren); Julia Stiles (Joan Brandwyn); Maggie Gyllenhaal (Giselle Levy) Ginnifer Goodwin ( Connie Baker). O filme é narrado nos anos cinquenta, década em que poucas mulheres tinham acesso à educação. Poucas mulheres tinha acesso à alguma coisa. Elas eram criadas para o casamento. E só isso importava. Mas, Katherine Watson, personagem de Julia chega na Universidade de Berkeley, na Califórnia, para tentar mostrar que elas podem mais.

A universidade e suas alunas faziam parte das famílias mais tradicionalistas da região. E mesmo sendo mulheres brilhantes, elas preferiam cuidar da casa e do marido. Katherine se sente incomodada com essa ideia, assim que chega a universidade e é hostilizada. Seus métodos modernos, sua solteirice e alto conhecimento de história da arte fazem com que ela não seja bem aceita pelas alunas, pelos pais e pela direção da instituição, que dá a entender quase o tempo todo que a contratou por falta de opção. É possível inferir que a preferência deles teria sido por alguém mais tradicional.

O filme faz várias alusões à arte, mas para mim seu tema principal é a situação feminina durante aquele período. Como as mulheres eram criadas para serem subservientes a seus futuros maridos. A que fugiam disso e buscavam outros rumos para as suas vidas, eram completamente rechaçadas pela sociedade. O movimento feminista, naquela época, nos Estados Unidos, estava com a roupagem da mulher dona de casa, aquela que queria ter a opção de cuidar da casa. Acredito que esse momento tenha representado um retrocesso na luta das mulheres, logo após um grande avanço do movimento feminista.

Grandes reflexões são imputadas. Na verdade, para mim surgiram essas questões. Como por exemplo, o conceito de arte e quem determina o que é arte; houve ainda minha reflexão sobre a autonomia feminina: a de querer realmente cuidar da família sem ser recriminada, o que vem sendo bem difícil ultimamente. Enfim, esse texto é mais sobre as reflexões e impressões que o filme causou em mim. Gosto de filmes assim, que por mais que seja assistido ainda continua inédito.



Rafaela Valverde



terça-feira, 1 de agosto de 2017

Saber viver - Cora Coralina

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Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar


Rafaela Valverde

terça-feira, 25 de julho de 2017

Minha relação com a escrita

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Minha relação com a escrita é bem antiga. Comecei a ler com quatro anos e a escrita veio logo em seguida: minha mãe sugeria que escrevesse cartas para professoras e minha madrinha. Minha mãe foi uma grande incentivadora de todo o processo, porque em todos os momentos que me lembro escrevendo na infância, minha mãe estava presente ou foi por causa dela. Além das cartas, havia as cópias de textos dos livros de português, especialmente como castigos; tinha também as caligrafias, aqueles cadernos para ajeitar as letras e as deixar bonitinhas. 

Não sei que coisa mágica é essa de minha mãe, pois não teve estudo, não gostava de estudar, segundo ela mesma, e ainda assim "puxava" da gente no estudo, de mim e de minha irmã. Fora isso, tínhamos o incentivo das escolas em que estudamos na primeira infância. Escolas pequenas, privadas, mas de bairro. Mas escolas que foram muito importantes em minha formação. Tive uma base muito boa, apesar de depois, a partir dos sete anos, ter ido para a escola pública.

Como tinha essa base da escrita e entrei na segunda série mais adiantada que meus colegas e ainda continuava o incentivo-castigo de mamis, eu seguia bem na escola. Apesar de lembrar de ler pouco nessa época, mas de já ter lido muito na escola anterior, foi lá que comecei a ler quadrinhos, eu gostava de ler, mas não tinha muito acesso a livros. Não havia internet e realmente eu só lia o pouco que conseguia nos livros didáticos e na casa de duas de minhas tias, que tinham alguns livros.

Com a reforma da escola que eu estudava, na terceira série do ensino fundamental, esperei que pudéssemos passar a frequentar a biblioteca, eu e minha turma, mas isso não acontecia. Continuei com pouco acesso e sem incentivos muito satisfatórios. No entanto, uma professora pedia que nós sempre lêssemos. Lembro claramente ela falando pra gente ler placas na rua e até bulas de remédios. Segui seu conselho.

Nessa época eu ainda não escrevia. E acho que também nessa época, começou a ir ao meu bairro, um projeto da biblioteca pública da Bahia: biblioteca móvel, que nada mais era que uma biblioteca em uma van. Eu carinhosamente chamava de bibliocombi. Nossa, como é bom lembrar disso, porque eu simplesmente amava esse momento. Foi aí que começou minha relação direta com os livros. Eram tardes de quarta feira, pra mim o melhor dia da semana. Eu ia lá, lia algumas revistas: Veja, Época, Turma da Mônica e pegava livros emprestados. Eu sempre li de tudo, mas amava ler romances água com açúcar. Uns que tinha nomes de flores. Simplesmente adorava. Lia nessa época, muito Agatha Christie também. Eu sempre li de tudo, independente se era próprio pra minha idade. Se eu tinha acesso eu lia. Não tenho certeza, mas acho que comecei a ler Sidney Sheldon também essa época, que são livros bem adultos.

Enfim, essa biblioteca esteve no meu bairro durante anos, toda quarta feira. E eu batia ponto lá. Pelo menos até mudar de escola e ir estudar no Centro da cidade. Lá havia biblioteca e eu podia frequentar a biblioteca pública dos Barris. E era o que eu fazia. Teve também as bibliotecas Monteiro Lobato e do Sesc, em Nazaré. Ambas fizeram parte da minha adolescência, também. Sempre vivi nesse universo literário

Comecei a escrever literatura pra valer com onze pra doze anos. Mas antes tinha um diário, então comecei bem antes dessa idade. Pois bem, aos doze anos escrevi a história baseada em um dos romances bestas que havia lido e dei pra minha professora de português na época, de quem eu gostava muito. Peguei várias folhas, escritas à lápis, grampeei, colei um papel ofício na frente com um nome que nem lembro mais e entreguei a ela. Até hoje tenho vergonha disso. Rsrsrs Coitada da professora, gente!

Depois disso não parei mais. Eram poesias bobas de menina, paródias para trabalhos da escola, tudo eu escrevia. Em 2008, eu já na era da internet, comecei esse blog. E já se foram nove anos! Eu estava em casa vagabundando, tinha terminado o ensino médio e estava procurando emprego. Estava sem rumo, me sentia triste e insatisfeita com aquela situação. Daí, decidi escrever sobre esses sentimentos que tanto me afligiam. E não parei mais.

Hoje eu escrevo tudo: poema, crônicas, contos, trabalhos acadêmicos, textos dissertativos. Tudo... Eu amo escrever. Em 2013 obtive 940 na redação do Enem e em 2014 900 pontos. Isso me deixa muito orgulhosa e eu fico espalhando para as pessoas. Claro que eu não nasci sabendo e nem é um dom divino que veio do nada. Eu ralei muito e batalhei para escrever como escrevo hoje. E ainda assim preciso muito melhorar. Li muito a minha vida toda e leio ainda. Até hoje eu leio muito, até porque meu curso exige.

Mas dá muito trabalho. Não é nada de outro mundo, qualquer pessoa pode escrever bem, basta ler e treinar bastante, é um trabalho árduo. Algumas pessoas acham que eu já nasci com o dom de escrever e que só tive que começar a escrever e mais nada. Confesso que isso me incomoda um pouco, mas vamos que vamos...


Rafaela Valverde


domingo, 16 de julho de 2017

E aí, você se toca?

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Como falar sobre masturbação? Acho que nunca falei sobre o assunto aqui no blog. Mas hoje vou falar. Então, todo mundo já sabe que os homens se masturbam. Já é um fato até batido e até mesmo fruto de piadas e histórias engraçadas sobre adolescências masculinas, contadas até na TV.  Mas, e as mulheres? Se masturbam? Se tocam? 

Eu acho que sim, levando em conta eu mesma. Porém ainda é muito menos que os homens, é muito menos o quanto poderiam e deveriam. As mulheres não são incentivadas a se tocarem. Até fica parecendo ideia de revista feminina, mas eu acho que é verdade. Porque lembro muito bem quando era criança e pré adolescente e ouvia coisas como: "tira a mão daí, menina...", "fechas as pernas..." e outras até mais repressoras.

Não endeusam vagina como endeusam paus. Vagina é feia, fedorenta, peluda e estranha. Vivemos escondendo nossas vaginas, com calcinhas e várias camadas de roupas. Além de inibidores de cheiros como desodorantes íntimos, protetores diários e sabonetes líquidos próprios. Até mesmo pela nossa constituição física não temos tanta facilidade em olhar nossa vagina.

Eu sempre fui muito curiosa e desafiadora dos costumes. Lembro que na adolescência olhava minha vagina no espelho e nunca a achei feia. Só achei vagina, ora! Mas na prática, as coisas não funcionam assim. Os homens por ter aquelas protuberâncias chamadas de paus, estão acostumados em olhar, pegar e se darem  prazer. Para mulheres é mais difícil, até por essas questões de criação que expliquei acima, por questões religiosas e outras.

É importante se tocar, se masturbar. Conhecer nosso próprio corpo, saber quais locais que mais dão prazer e como. Só saberemos como gostamos de ser tocadas se efetivamente nos tocarmos. Até por questões de saúde é importante, pois se houver alguma lesão na região, a partir do tato fica mais fácil identificar. Fora que é muito bom dar prazer para nós mesmas.

Em tempos de homens ruins de cama e muito tesão, se masturbar pode ser um socorro (rsrsrs). Eu não tenho vergonha de falar, de escrever sobre o assunto. Homens fazem isso diariamente e falam naturalmente, por que nós mulheres temos que nos reprimir tanto? Por que há tanto problema com a sexualidade feminina? Mulheres, se toquem, gozem e aproveitem a liberdade que vocês têm.



Rafaela Valverde

domingo, 2 de julho de 2017

Como saber se você é machista


Se você acha que existe mulher para namorar e outra só para pegar e mulher fácil e difícil, você é machista. E dos grandes! Se você acha que mulher que "dá" (entre aspas porque não damos porra nenhuma pra você, só estamos testando se o equipamento é bom) na primeira vez que sai, não presta pra ter um relacionamento você é um filho da puta machista.

Se você acha que só mulher pode fazer serviços domésticos e não consegue aprender mais nada além disso, você é machista. Se você acha que mulher deve ter filho, porque é biologicamente programada para isso, você é machista, querido. Se você põe a culpa da sua escrotidão nas mulheres que estão ou passaram na sua vida, adivinhe? Machista.

Se você ainda acha, em pleno século XXI, que mulher não goza, não precisa gozar ou não gosta de sexo, você é um machista, escroto e ignorante, que não conhece mulher. Além de nojo, só consigo ter pena de você. Se você acha que mulher não consegue carregar peso, ou qualquer outro tipo de trabalho braçal ou ainda não pode sair sozinha, com amigas você é um 'MACHISTÃO', OTÁRIO!

Se você acha que sua namorada ou esposa não pode fazer qualquer coisa sem você, ou usar saia curta ou fazer a porra que ela quiser, você é um cuzão machista e merece ficar sozinho. Se você acha que mulher é só um pedaço de carne que merece ser assediada na rua e só uma buceta para você meter seu pauzinho incompetente, você está fazendo muita coisa errada e nem sabe o que é sexo! Se você faz muitas dessas coisas que eu sei que você faz aí, você é tudo isso que eu falei e também é um egoísta que não merece compaixão talvez nem de sua mãe, que a propósito, é uma mulher.

O mais engraçado é que alguns homens fingem que não sabem que estão sendo machistas. Se fingem de santos e ainda se ofendem quando ouvem verdades e são colocados em seus devidos lugares. Coitadinhos de vocês, tão sofridos com séculos de opressão e misandria.  E agora, em pleno 2017 ainda têm que aguentar mi mi mi de feminista peluda... Tô realmente muito indignada por vocês, 'omis'.

E por fim, devo ainda trazer nesse texto que se você é homem, não deixa uma mulher se pronunciar, falar o que ela pensa e ser ela mesma, você é muito machista. Há que se lembrar ainda da objetificação do corpo da mulher e da posse. Essas duas coisas abjetas causam muitos estupros e feminícidios brutais a cada dia. Somente no Brasil, a cada onze minutos, uma mulher é estuprada e a culpa é de vocês homens, de quem estupra, e não da mulher que está de saia curta bebendo na balada. Porque afinal de contas, 'omis' escrotos usam a porra da roupa que querem, se embriagam quase diariamente e não têm seus corpos violados por ninguém. Entendam isso de uma vez por todas: vocês não são donos das mulheres, vocês não são donos de mais nada. O patriarcado acabou, os homens não mandam em porra nenhuma. Aceitem e deixem de ser bebês chorões. Parem que tá feio!




Rafaela Valverde

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Em Código - Fernando Sabino

 Gente, quando eu era criança e adolescente eu adorava ler  o que Fernando Sabino escrevia. Especialmente os contos e as crônicas. Li esse num livro de Irandé Antunes ontem e me lembrei desse período. Quis trazer para vocês, meus leitores. Aproveitem!



Fui chamado ao telefone. Era o chefe de escritório de meu irmão:
- Recebi de Belo Horizonte um recado dele para o senhor. É uma mensagem meio esquisita, com vários itens, convém tomar nota: o senhor tem um lápis aí?
- Tenho. Pode começar.
- Então lá vai. Primeiro: minha mãe precisa de uma nora.
- Precisa de quê?
- De uma nora.
- Que história é essa?
- Eu estou dizendo ao senhor que é um recado meio esquisito. Posso continuar?
- Continue.
- Segundo: pobre vive de teimoso. Terceiro: não chora, morena, que eu volto.
- Isso é alguma brincadeira.
- Não é não, estou repetindo o que ele escreveu. Tem mais. Quarto: sou amarelo, mas não opilado. Tomou nota?
- Mas não opilado - repeti, tomando nota. - Que diabo ele pretende com isso?
- Não sei não, senhor. Mandou trasmitir o recado, estou transmitindo.
- Mas você há de concordar comigo que é um recado meio esquisito.
- Foi o que eu preveni ao senhor. E tem mais. Quinto: não sou colgate, mas ando na boca de muita gente. Sexto: poeira é minha penicilina. Sétimo: carona, só de saia. Oitavo...
- Chega! - protestei, estupefato. - Não vou ficar aqui tomando nota disso, feito idiota.
- Deve ser carta em código ou coisa parecida - e ele vacilou: - Estou dizendo ao senhor que também não entendi, mas enfim... Posso continuar?
- Continua. Falta muito?
- Não, está acabando: são doze. Oitavo: vou mas volto. Nono: chega à janela, morena. Décimo: quem fala de mim tem mágoa. Décimo primeiro: não sou pipoca, mas também dou meus pulinhos.
- Não tem dúvida, ficou maluco.
- Maluco não digo, mas como o senhor mesmo disse, a gente até fica com ar meio idiota... Está acabando, só falta um. Décimo segundo: Deus, eu e o Rocha:
- Que Rocha?
- Não sei: é capaz de ser a assinatura.
- Meu irmão não se chama Rocha, essa é boa!
- É, mas foi ele que mandou, isso foi.
Desliguei, atônito, fui até refrescar o rosto com água, para poder pensar melhor. Só então me lembrei: haviam-me encomendado uma crônica sobre essas frases que os motoristas costumam pintar, como lema, à frente dos caminhões. Meu irmão, que é engenheiro e viaja sempre pelo interior fiscalizando obras, prometera ajudar-me, recolhendo em suas andanças farto e variado material. E ele viajou, o tempo passou, acabei me esquecendo completamente o trato, na suposição de que o mesmo lhe acontecera.
Agora, o material ali estava, era só fazer a crônica. Deus, eu e o Rocha! Tudo explicado: Rocha era o motorista. Deus era Deus mesmo, e eu, o caminhão.


Rafaela Valverde

terça-feira, 20 de junho de 2017

Burocracia ou burrocracia no ILUFBA


Cá estou eu cercada de burocracia. Ou seria burrocracia? A UFBA está impregnada desse ranço do século passado. Todos nós alunos da UFBA estamos cercados desse sistema que não ajuda ninguém, em maior ou meno medida. O fato é que perguntei a algumas pessoas e especificamente o Instituto de Letras, onde eu passo maior parte do meus dias aqui dentro é um dos mais burocráticos.

Pois bem, para o colegiado de Letras Vernáculas receber contratos de estágio dos alunos para assinar, os alunos precisam entregar cópias do histórico e comprovante de matrícula. Até aí tudo bem, se não fosse um formulário com assinatura de três professores. Até aí tudo bem, estamos em sala de aula constantemente com os professores, mas há outro problema: eu, por exemplo, estou tendo mais dificuldade em encontrar professores do que eu imaginava. Só tenho aula às segundas, quartas e sextas. Já vou perder a sexta por causa do São João e uma das minhas professoras é estagiária de pós graduação, não pode assinar, tenho que ir atrás do titular. Desde ontem bato nas portas dos gabinetes dos professores sem sucesso. Consegui ontem uma assinatura. Hoje ficarei aqui até à noite para conseguir outra e talvez consiga uma outra a partir das 14 horas de amanhã.

Beleza, entro com o contrato amanhã à tarde. Mas aí, o colegiado exige mais 72 horas de prazo para analisar e assinar o contrato, não adianta vir antes. É no mínimo 72 horas mesmo. Sem conversa. E lhe lá. Com esses três dias úteis para assinar meu contrato eu só consigo pegá-lo na segunda à tarde, talvez terça pela manhã. Tenho prazos para cumprir e estou nessa ladainha desde sexta feira passada, hoje é terça.

Eu não compreendo que sistema é esse, sinceramente. Como assim, eu tenho que provar para a universidade que frequento as aulas? Por que um prazo tão grande para analisar as disciplinas cursadas, carga horária, etc? Não  são todos os alunos do Instituto que solicitam ao mesmo tempo, então não há demandas como essas diariamente. Eu só gostaria de entender, por isso o meu questionamento. Não explicam nada para a gente, a gente só tem que aceitar, mesmo não concordando.

Até porque não se sabe o motivo dessa rigorosa e chata burocracia. Pode ser que já tenham havido problemas no passado, porque as pessoas são corruptas, isso são. Mas será que não há uma preguiça de pensar em outra solução menos burocrática? Será que os próprios alunos não teriam alguma sugestão? Já que é nossa realidade, nosso dia a dia, nosso estágio, nossa correria. O que não pode é continuarmos calados, aceitando esse processo anacrônico, que só faz atrapalhar mais ainda a gente. A burocracia é um dos maiores atrasos desse país. Coisas que podem ser resolvidas em poucas horas levam dias! E temo recursos para isso, humanos e tecnológicos, o que falta mesmo é boa vontade, empatia e usar a cabeça, especialmente nos serviços públicos.


Rafaela Valverde

sexta-feira, 9 de junho de 2017

As maravilhas da leitura


Há unanimidade quando se fala nas vantagens de se cultivar o hábito da leitura. Apesar de o brasileiro ler pouco, houve nos últimos anos, aumento na média de livros lidos.

Canais do youtube trazem indicações de livros de diversos gêneros, clubes de leitura aumentaram consideravelmente no país. Os clubes de leitura são aqueles em que os clientes pagam um valor fixo mensal e recebem todos os meses, também, livros no conforto de suas casas. Assim, mais pessoas podem desfrutar dos inúmeros benefícios da leitura. Acessibilidade é importante, mas, livros ainda continuam bem caros no Brasil.

Porém, para melhorar a comunicação oral e escrita, aumentar o vocabulário, estimular a imaginação, relaxar e aliviar o estresse, entre outros bônus, vale a pena pagar pelos livros. Opções mais baratas seriam os sebos e feiras de livros; gratuitamente também é possível frequentar bibliotecas. Ler é viciante; é um prazer que se estende, transformando -se em mudança de vida. Por exemplo, quem quer escrever, precisa ler de tudo, afim de ampliar o repertório; o estudo, em todos os níveis, perpassam pela leitura, por textos. Ler é uma delícia e faz bem.

Dessa forma, apesar do sensível aumento no número de leitores brasileiros, ainda é possível constatar que o brasileiro não gosta muito de ler. Isso atrasa o país em anos, em relação a outros países do mundo. São necessárias, portanto, ações efetivas na educação, com campanhas de incentivo, exemplos e sobretudo, baixa nos impostos dos livros. Então, assim será possível, talvez, vislumbrar ainda mais leitores no futuro.


Rafaela Valverde

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Livro O leitor


Terminei de ler o livro O leitor. Esse livro originou o filme que deu o Oscar de melhor atriz a Kate Winslet. Inclusive, assisti o filme antes e nem sabia que existia o livro. Descobri há bem pouco tempo. Comprei o livro por dez reais com uma menina que conheci no Facebook em grupos de vendas de livros.

Confesso que demorei de ler o livro, achei ele meio paradão. Meu ritmo de leitura de livros está bem lento, sobretudo por causa da faculdade e por casa das séries hehehe. O livro foi escrito pelo escritor alemão Bernhard Schlink e publicado em 1995. A adaptação para o cinema só foi feita em 2008.

O filme é bastante fiel ao livro. Há muitos detalhes, claro, que no filme não são contados. Essa parte gostei bastante. Alguns detalhes foram esclarecidos com a leitura. A história contada é a de Michael Berg, menino de 15 anos que ao ficar doente conhece a cobradora de bondes Hanna Schmitz, que tinha 36 anos. Eles vivem um caso tórrido de paixão e Hanna pede que o "menino", como ela o chama, leia para ela em voz alta. Muitos livros são lidos, entre uma transa e outra. E assim, o menino vai se descobrindo e amadurecendo.

Alguns anos depois, quando ele já havia se afastado de Hanna e estudante de direito, encontra a mulher que outrora amou, no banco dos réus. Ela havia sido guarda nos campos de concentração do nazismo, vitimando diversas mulheres em um incêndio. Hanna tem um grande segredo e pretende abrir mão de muita coisa para preservá-lo, inclusive da sua liberdade,

Michael narra o livro. E o quadro com que nos deparamos é ele narrando sua própria culpa e tristeza durante toda a sua vida, até o instante em que finaliza o relato. Culpa, saudade, dor, tristeza, saudade. A vida dele inteira girou em torno desse amor de adolescência. Amor por uma mulher incrivelmente misteriosa e fascinante. Leiam!



Rafaela Valverde

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Impressões da sala de aula


Comecei a dar aulas em uma escola estadual. Nunca pensei que fosse fácil, mas descobri que é bem difícil ser professora. Principalmente em escola pública, onde os meninos são jogados lá, sem ao menos compreender o porquê de estarem ali. Há ainda a falta de estrutura e também o grande uso de tecnologias, como o celular  e vídeos do youtube, que podem atrapalhar bastante a prática docente.

Os meninos ouvem música e ficam com o celular na sala, às vezes tocando música sem o fone de ouvido. Não há nenhuma noção de disciplina, nem do que deve ou não ser feito. Não há noção de hora certa para fazer determinadas coisas. Eu sempre ouvi na minha casa que existia hora para tudo, hora para se divertir e hora de ralar. Eu sempre ouvi que primeiro deve vir a obrigação e depois a diversão.

Percebo que não há respeito nem na presença do professor. Não posso ser hipócrita e dizer que eu fui uma criança e uma pré adolescente maravilhosa e bem comportada. Não fui! Mas os meus pais estavam presentes na escola por tudo que eu aprontasse e era quase sempre. Por mais que no fundo eles achassem que não adiantaria nada, eles iam. Já chegue a tomar uns tapas de minha mãe dentro da escola.

Mas, mesmo sendo rebelde, havia um mínimo de respeito ao professor. Mesmo que eu continuasse a conversar, porque lembro que era uma faladeira na sala, eu pelo menos entrava na sala e sentava na cadeira. Ao contrário de hoje. Os meus alunos não sentam, não param, não se interessam pelos conteúdos e nem me respeitam. Fora que saem da sala toda hora e outros alunos entram na sala a todo momento, me ignorando.

A estrutura da escola pública não ajuda muito a vida do professor não. Algumas salas nem porta têm e quando chove molham tem goteira. Não têm ventiladores e é péssimo estudar assim. Como eu, sozinha, vou fazer os alunos prestarem atenção em mim com tantas distrações e com tanta falta de estrutura? Eu até tento. Converso com eles, fiz um jogo e pretendo fazer o máximo para tornar minhas aulas interessantes mas é bem difícil.

É difícil porque esse interesse pela escola e pelo conhecimento não vem de casa. Os pais não leem. Mas também qual o pai que tem tempo ou dinheiro para comprar livro? Não estou defendendo, pois isso não justifica nada. Essa é uma sensação geral que eu tenho. As pessoas não estão nem aí para nada, não leem, não estudam, não se informam. Só querem saber de festas, alegrias da vida, novelas, youtube, whatsapp... Mas quem condenaria essas pessoas? O caminho do conhecimento é bem árduo.

Eu também gosto de todas essas coisas, mas amadureci cedo e entendi desde nova que havia momento para tudo na vida. Há hora para estudar, para brincar, para dormir. Deve haver uma adequação para tudo na vida, não é mesmo? Mas é isso, essa é uma das minhas reflexões sobre a sala de aula e sobre a prática docente. Espero que eu faça mais!


Rafaela Valverde


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Minha trajetória acadêmica

Em 2010 passei no vestibular da Uneb - Universidade do estado da Bahia para o curso de Pedagogia, que eu não sabia exatamente do que se tratava, mas como achava que queria fazer psicologia, achei que pedagogia tinha semelhanças com psico e lá fui eu. As aulas começaram no dia 12 de abril e ainda era tão menina, ia fazer vinte e um anos e estava noiva. Nessa época eu trabalhava e estudava e só vivia cansada, dormia na aula e não sei como eu consegui lidar com oito matérias assim. Uns dois meses depois fiquei desempregada e minha mãe que me ajudava com a faculdade. Casei no mesmo ano e continuei nos semestres seguintes com as oito disciplinas.

Depois de um tempo comecei a pegar menos matérias e fui ficando atrasada, separada das minhas colegas e amigas que tinha feito naqueles meses. Acredito que  isso tenha me desmotivado bastante, além  de uma monitoria que fiz e não recebi o dinheiro ao qual tinha direito e precisava. Por essas e questões de não gostar e não me adaptar com algumas disciplinas e questões do curso acabei abandonando. Eu não via mais graça em estar ali, fazendo aquele curso. Me sentia sem perspectivas.

Foi nessa época que passei a dar mais atenção ao blog e quis seguir o sonho de escrever, de ganhar dinheiro escrevendo e botei na cabeça que queria ser jornalista. Por que queria escrever de qualquer jeito. Até pensei em fazer letras, mas tinha horror à licenciatura e à sala de aula. Tentei entrar na UFBA em jornalismo e não consegui. No ano de 2013 depois de uns meses fora do Departamento de Educação da Uneb, decidi voltar. Mas durou pouco tempo. Minha falta de afinidade com o curso era latente, eu não me dava bem com a maioria dos professores de lá que eram muito arrogantes. Não tinha motivação para ir até lé, nem para fazer as atividades, nem de olhar para as caras dos professores. Saí de novo e dessa vez pra valer.

Em 2014 depois de mais um Enem tentei novamente o curso de jornalismo na UFBA e não consegui. Porém fiz um vestibular na Unijorge e passei, consegui um FIES e fui fazer jornalismo nesse centro universitário privado. Não me adaptei muito bem lá. A universidade parece um shopping, com praças de alimentação bem grandes e quase nenhum apoio a alunos de baixa renda. Me sentia deslocada, um peixe fora d'água. Fora que a sala que eu estudava era super barulhenta e imatura, me sentia estudando em uma escola de ensino médio. Fora que com boletos todo mês e o salário que eu ganhava não estava dando, daí decidi usar a mesma nota do Enem e ganhar uma bolsa em uma universidade diferente e melhor. Consegui a bolsa e ia começar o semestre no mês de agosto de 2014. Enquanto isso, minhas colegas estavam se formando. 

Faltando poucos dias para começar o semestre na FSBA - Faculdade Social da Bahia eu recebi uma ligação  avisando que não havia formado turma para jornalismo e que o curso estava praticamente extinto na universidade. Eu teria que escolher outro curso ou desistir da bolsa. Dentre os cursos que me ofereceram fiz a merda de escolher um. Eu não acreditava mais que pudesse entrar na UFBA  e seguir a carreira acadêmica que eu tanto sonhava. Então eu escolhi psicologia. Entrei sem semestre definido e pegava disciplinas introdutórias misturadas com as mais avançadas e não entendia os conceitos básicos tendo certa dificuldade em acompanhar. Sentia o tempo todo que me formaria sem nenhuma perspetiva, não me sentia feliz ali, nem no curso e nem na faculdade. Fora que é perto do campus da UFBA em que estudo hoje e pegava os mesmos ônibus que vários alunos da Federal que ali desciam e ficava pensando que meu lugar era ali, que um dia eu gostaria de descer antes, naqueles ponto.

O que começou a me tirar daquele curso e daquela faculdade foi a dificuldade em estudar. Os textos eram longos e meu tablet havia quebrado, me impossibilitando de ler a maioria dos textos. Eu teria que tirar xerox ou imprimir todos e não tinha grana para isso, apesar de estar trabalhando na época. Comecei a tirar notas ruins e a faltar nas aulas de sábado, já que trabalhava aos finais de semana. Eu sabia que tinha que sair dali e exatamente no meio do ano de 2015, no SISU do meio do ano eu decidi que eu iria para a UFBA em qualquer curso. E eu entrei em Letras. De primeira. Sabe se que as notas de corte desses cursos são bem baixas e não foi tão difícil. Fiquei muito feliz. Acho que foi um dos poucos dias mais felizes que tive naquele ano. Dia 15 de junho de 2015. A universidade estava em greve, fiz matrícula, mas só comecei a ter aulas em janeiro de 20016, ano passado e hoje estou no quarto semestre e realmente estou onde eu merecia, precisava e queria estar. Eu dou aulas particulares de Português e agora vou assumir salas de aula em uma escola estadual. Eu estou muito feliz e realizada na minha vida acadêmica. Eu amo ensinar. Eu já faço pesquisa e sou bolsista de Iniciação Científica. Eu vejo  a realização do meu sonho chegando, chegando aos poucos. Eu tenho contato mais direto com literatura, algumas disciplinas de literatura do curso são fascinantes e eu adoro entrar naquele portão todos os dias. Por mais que a coisa não seja fácil. É muito estudo. É tudo bem diferente de todas as universidades em que já estive. Mas eu adoro, finalmente me encontrei.

Não desista do seu sonho, não hesite em sair de algo que não te faz bem, onde você não quer estar. Saia e vá atrás do que realmente você quer. Porque uma hora dá certo. Essa é a loucura da minha vida acadêmica até agora, minhas desistências e conquistas. 



Rafaela Valverde

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Aproveite a vida!


Existem diversos motivos para se odiar. Quando a gente se olha no espelho e vê a cara inchada e os olhos vermelhos de ter chorado a noite toda por quem não merece, a gente se odeia. A gente se odeia quando faz alguma merda, a gente se odeia quando faz ou fala coisas que não deveria ter falado. A gente se odeia quando adianta coisas que nem deveriam acontecer.

Muitas vezes passamos por coisas que poderiam ter sido evitadas por nós mesmos. Parece que nosso cérebro até avisa, "sai daí, idiota, você vai se estrepar." Mas você continua insistindo em algo que sabe que vai dar merda. Assim, vão surgindo razões para que a gente se massacre mentalmente, se odeie e sofra por antecipação, tentando evitar fazer outra cagada.

Existem muitos motivos para a gente querer morrer. ás vezes bate uma tristeza terrível e a gente não consegue fugir; às  vezes são tantos problemas e um atrás do outro que a gente acha que não vai aguentar e se recusa a suportar mesmo tantas rebombadas. Mas no final das contas, a gente vê que aguentava e que é mais forte do que imaginava. É claro que a coisa toda não fica plena e todos nós temos problemas na vida e que eles voltam sempre que podem para encher o saco. E é normal, é assim, é um círculo vicioso.

Existem, no entanto, inúmeros motivos para a gente brindar a vida e se amar. Há motivos diversos para adorar viver e querer viver cada vez mais. A vida é linda, apesar dos percalços. A natureza nos presenteia com lindos espetáculos, apesar de a gente muitas vezes não notar e ainda destruí-la. Os cantos dos pássaros em meio ao caos de uma avenida movimentada; um pôr do sol em um dia de verão; experiências que temos em determinados momentos: viagens, sensações, gargalhadas... Ter amigos é incrível, rir de uma piada, dançar sozinha em casa, tomar um bom vinho, um belo churrasco... É tudo bem gostoso, é a prova de que vale a pena viver. É  a prova de que vale a pena enfrentar problemas e obstáculos. Tudo tem lado bom e lado ruim. E essa é a graça da vida. Os bons momentos não existiriam sem os ruins. E eu tempo ver sempre ou quase sempre, o lado bom das coisas, apesar de ser difícil, bastante difícil. Mas a gente consegue, afinal é bem melhor curtir a vida e o que ela tem de bom para oferecer.




Rafaela Valverde

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Há dez anos eu fazia 18


Há dez anos eu completava dezoito anos, eu achava, assim como todo adolescente, que os dezoito anos abririam portas e tornariam a vida mais fácil, ou mais feliz. Ou pelo menos diferente. A gente sempre trata as idades como etapas. Na verdade, o tempo ou uma determinada quantia de tempo. Até os dezoito, antes dos trinta, depois dos trinta, etc. Sempre há rótulos e demandas a depender da década em que se vive.

A gente não se dá conta e acaba sendo a mesma pessoa que foi no ano e na idade anterior, mas a gente muda muito. E é claro que em dez anos muitas coisas mudam, inclusive na aparência e no peso. Engordamos e melhoramos. Deixamos os óculos de lado e evoluímos intelectualmente e muitas outras mudanças. Eu, por exemplo, ao contrário de dez anos atrás, adoro poesia. Eu não tinha paciência nenhuma para poemas. Eu tinha problemas de auto estima e me achava feia.

Eu tinha dezoito anos e quando a gente tem essa idade tem muito pouco o que mostrar além das aparências. Ainda não construímos nada, salvo em raras exceções, não temos experiência e ainda estamos começando a vida, aprendendo e adquirindo experiências. Dessa forma, as aparências são bastante valorizadas mesmo.  Funciona assim: "fulaninho é feio, cicraninho é gordo e feio..."

Bom, pelo menos é assim que eu vejo hoje. Não é porque os meninos são malvados, não. É porque são adolescentes. Eu fui adolescente e há dez anos, há apenas dez anos eu completava dezoito. E sem que eu me desse conta os anos foram passando, as coisas foram acontecendo e eu fui mudando. Muita coisa aconteceu. Mudei de empregos, de cursos na faculdade, casei, separei, sofri, chorei, sorri, me divertir, viajei. A vida foi passando e fui me tornando quem sou hoje.

E com certeza hoje não vejo apenas aparência no espelho, nem minha e nem das outras pessoas. Somos muito mais que um corpo magro, ou um cabelo liso e uma pele perfeita, somos seres humanos. Com subjetividades, peculiaridades, sentimentos e atitudes. É isso, dez anos é um período curto ao mesmo tempo que é uma grande quantidade de anos. Depende do ponto de vista, depende do que se faz em dez anos. Eu aprendi muito, eu sou outra pessoa. Bem mais gorda, sem óculos, cacheada e sem química, com uma mente aberta, escritora, independente que sabe o que quer da vida. Eu cresci!




Rafaela Valverde

sábado, 25 de março de 2017

Alguém sabe o que é Brasil?


Esse texto é um pequeno ensaio produzido por mim para avaliação da disciplina Literatura Brasileira e a Construção da Nacionalidade do curso de Letras da UFBA.

Para o novo país, havia a necessidade de definição. Nações europeias já estavam aí há muito mais tempo. O Brasil era novo nessa coisa de ser pátria. As pessoas que habitavam o território brasileiro eram diversas já no período radical.
Um país com jeito de continente: como formar uma unidade? Com engendrar traços em comum que tornassem o povo, ou os povos que aqui viviam minimamente homogêneos? Era realmente possível? O fato é que hoje ainda não somos homogêneos, apesar das inúmeras tentativas. Graças a Deus, graças a todos os deuses, já que somos  um estado laico.
O querer ser nação foi inventado pela Europa, é claro. Ainda no século III no período do Império Romano, onde já existia esse tipo de política para impressionar e para dominar. Em Roma havia exército, guerras, corrupção, brigas políticas e dominação de povos. Segundo Ernest Renan, no texto O que é uma nação? foi a invasão germânica ao território românico que introduz no mundo o princípio da nacionalidade. É claro que esse conceito só seria desenvolvido mais tarde; a invasão foi uma base para o que conhecemos hoje. Portugal trouxe-nos de forma bastante contundente, ideias de nacionalidade como bom representante do continente europeu.
Renan escreve ainda que “[...] a essência de uma nação é que todos os indivíduos tenham muitas coisas em comum, e também que todos tenham esquecido coisas”. Dessa forma, para que uma nação seja nação, a maioria das pessoas deve compartilhar nuances de uma mesma cultura e ao mesmo tempo ocultar o que não interessa dessa mesma cultura. Em geral que é esquecido é algo ruim, ou considerado ruim ou ainda algumas culturas produzidas pelas minorias.  Existe uma crença que para o Brasil ser Brasil, se faz necessário que todos falem o mesmo português, gostem de futebol e carnaval, por exemplo. Ao mesmo tempo ser Brasil é estereotipar povos indígenas e pessoas pretas; é esquecer e ocultar escravidão e massacres desses povos; ser Brasil é acreditar piamente no mito da democracia racial, ser Brasil é  ”esquecer” de muitas outras perebas históricas e sociais de um jeitinho escroto regulamentado por nós mesmos.
Não dá para ser homogêneo. Não é possível que exista homogeneidade quando se trata de seres humanos com culturas, subjetividades e individualidades. Somos iguais perante a constituição brasileira e somos tão diferentes. Somos essencialmente distintos, isso não dá para mudar. Essas diferenças vêm de todos os fatores que já sabemos: miscigenação, intercâmbios culturais, etc. Se não há homogeneidade, tampouco é possível definir o “ser brasileiro” apenas por esse jeito de se pensar que é ser brasileiro. Não dá para definir através de futebol, carnaval, língua e novela. Aliás toda essa trama bem conduzida e interligada de que todo brasileiro gosta dessas coisas foi criada politicamente. Isso é óbvio. Como eu disse no início, era necessário vender o novo país ao mundo. E quanto a isso, meu texto é até repetitivo.
Vejamos: somos tão criativos em alguns casos que até o jeitinho brasileiro varia de região para região; duvido que o cara que burla qualquer coisa lá no Sul, burle da mesma forma que burlamos aqui no Nordeste. Nem todos gostamos de futebol, ou entendemos suas regras, como é o meu caso. O carnaval também não é unânime por aqui. Há também heterogeneidades na língua. Com dialetos e sotaques, ela não é igual em nenhum estado brasileiro.
Assim, não dá para definir nacionalidade através desses aspectos. Mas o que é ser brasileiro, afinal? “Uma nação é uma alma, um princípio espiritual.” (RENAM, P. 18) Para ele é invisível, para mim uma mentira. A nação brasileira inventada para satisfazer o resto do mundo é uma falácia.

 O próprio Renam afirmou em seu texto, que é preciso uma boa dose de  esquecimento para formação de nações.  Dessa forma exterminamos a maioria dos nossos índios, matamos pessoas pretas todos os dias. Essas ações, conscientes ou não, ajudam a ocultar o que não queremos em nossa pátria. O lado da história que queremos é o lado narrado pelo homem branco.
Nossa história começou a ser contada, como até hoje é, por homens brancos, europeus, heterossexuais. Histórias ou estórias que narram a grandeza do homem europeu que fez o favor de achar o Brasil e nos salvar dos povos indígenas selvagens que aqui viviam. Obrigada, gente!
A carta de Pero Vaz de Caminha é um dos exemplos da contação dessa estória, sim, para histórias fantasiosas é estória! A lenda do surgimento do Brasil e da nacionalidade brasileira estava esquecida e foi resgatada para ser um símbolo de brasilidade e orgulho da terra maravilhosa em que nascemos, olha que sorte!
O texto Quem foi Pero Vaz de Caminha? De Hans Ulrich Gumbrecht traz informações e reflexões importantes para refutar a carta. Caminha não só esteve aqui por apenas dez dias como também  não se sabe quase nada sobre o homem que primeiro descreveu o Brasil. Há várias outras questões no texto, listo aqui algumas delas: Pero Vaz de Caminha só esteve presente na expedição do “descobrimento” por causa de suas habilidades  para escrever. Portanto, ele já veio com essa função pré- determinada. Ou seja, a carta não foi fruto do fascínio de Caminha pelo país. Não era literatura, era um documento oficial para ser entregue ao rei de Portugal. Um relatório sobre o recém-achado país que serviria para enriquecer ainda mais a corte portuguesa. A carta descreve vários momentos  desses dez dias de convivência com  os índios: as comidas, os rituais. As danças, as relações sociais e os costumes. Tudo meio piegas  e estereotipado. O Brasil é um país rico e perfeito e é aqui que vamos nos estabelecer trazer nossos presos e extrair toda riqueza que for possível.
O texto, tratado até como literário, pode ser considerado o marco inicial dos textos nacionalistas, que montam o Brasil e o brasileiro baseado em conceitos que pretendem vender o país como paraíso tropical, com  um jeitinho malandro e lindas mulheres.
O termo nacionalismo traz uma ideia patriótica intrínseca, mas não é tão fácil definir. Não há um significado só. Nação e nacionalismo são o que querem que a gente pense que é. Para Benedict Anderson: “Nação, nacionalidade, nacionalismo, todos provaram ser de dificílima definição que dirá de análise.” (p.28)
Se Anderson está afirmando isso, quem sou eu para tentar aqui definir qualquer um desses termos. Mais a frente, o autor discute nação como algo inventado, como “uma comunidade política imaginada, [...] limitada e ao mesmo tempo soberana.” (p.22)
Dessa forma, há de se concluir que o Brasil enquanto essa nação alegre, festiva e receptiva, não existe. Não existe porque não existe um só Brasil, mas Brasis. Diversos, multiculturais, que vai além do Brasil que querem mostrar ao mundo. Parece que sempre existiu essa mania de querer difundir um Brasil especial, desde Caminha até hoje.
Especialmente a partir de 1930, quando houve uma mudança política no país, essa imagem articulada de um Brasil malandro e festeiro foi distribuída pelo mundo. Filmes, propagandas políticas, jornais, livros e gêneros literários espalhavam nosso jeito maroto de viver. Todos esses meios convergiam para confirmar a versão de Brasil  que pretendiam espalhar. Nós tínhamos e ainda temos um Brasil encomendado. Drummond, ciente disso, perguntou em seu poema Hino Nacional, se o Brasil existe mesmo e se existem mesmo os brasileiros? Esse Brasil e esses brasileiros encomendados e inventados? É a mesma pergunta que eu me faço.  
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Rafaela Valverde


sexta-feira, 24 de março de 2017

Série Merli


Dois professores me indicaram a série Merlí e eu decidi assistir. Está no Netflix e eu não poderia deixar de dar uma espiada. Especialmente por se tratar de uma série catalã, cuja cultura e língua eu ainda não tinha tido contato e por se tratar de educação e filosofia. Merlí estreou na Catalunha em 2015 e a Netflix comprou os direitos de exibição no Brasil e nos EUA.

Só tem a primeira temporada, mas já quero a segunda! Merlí, professor que dá nome a série é um professor de filosofia nada tradicional. Ele chega à escola causando polêmicas com os outros professores e com os alunos que estranham sua forma de ensinar e agir. Desperta o ódio de alguns e o amor de outros. Um outro detalhe da série é que cada episódio é nomeado com um filósofo ou uma vertente filosófica como os peripatéticos. E nesses episódios com nomes de filósofos, as aulas e as histórias têm influências de certas ideias deles. 

Merlí é pai de Bruno, que também é seu aluno. Bruno é gay mas ainda está no armário. E as histórias vão se desenvolvendo a partir dos dramas dos alunos, da personalidade do professor-protagonista Merlí, que não é nada fácil e a partir de ideias filosóficas também. Vários assuntos são abordados, como conflitos entre pais e filhos, divulgação de vídeos íntimos na internet, bullying, homossexualidade, etc.

É uma série muito bacana. Bem produzida, com boas atuações e aquela gostosíssima língua catalã que inclusive estou estudando na faculdade, já que é uma língua românica, advinda do latim hahaha. É isso, gente, eu gostei bastante e recomendo. Para professores e pessoas normais (rsrsrs). Já que é uma série bastante divertida e dá para aprender alguma coisa sobre filosofia. Recomendo!



Rafaela Valverde

sexta-feira, 10 de março de 2017

Resenha acadêmica de Nove Noites - Bernardo de Carvalho


Livro que foi publicado em 2002 e  recebeu   o   prêmio  Portugal  Telecom de Literatura Brasileira, Nove Noites é o sexto livro de Bernardo de Carvalho. Ele mescla fatos da vida do antropólogo norte-americano Buell Quain com a vida do narrador. No dia 02 de agosto de 1939, cinco meses após chegar ao Brasil em sua segunda visita, Quain  se   suicidou   aos   27   anos.  Ele   vivia   com   a   comunidade  indígena   Krahô,   noTocantins, quando decidiu tirar a própria vida.

O narrador, sessenta e dois anos depois, resolve investigar obsessivamente o caso, após ler um artigo no jornal que fazia rápida menção ao suicídio de Quain. Ele segue pistas, contata pessoas que poderiam estar ligadas ao antropólogo e vai até a região conhecer os Krahô, a fim de tentar saber informações sobre esse misterioso suicídio. Ele usa o pretexto de que vai escrever um romance. E a partir dessa obsessão as histórias começam a ser contadas, de forma intercalada.

 O   livro,   na   verdade   pode   ser   encarado   como   uma   colcha   de   retalhos   de especulações sobre o que teria motivado o suicídio do jovem antropólogo. Mas uma colcha de retalhos genial. Bernardo de Carvalho – que já afirmou que o livro é “uma combinação de memória e imaginação” – soube desenvolver muito bem a narrativa a partir de fatos reais. Em uma entrevista para a Revista Trópico, Bernardo afirma que queria escrever um romance que não fosse paternalista e que mostrasse os índios como eles realmente são. Afirma ainda que queria fugir de diversas outras abordagens que são paternalistas. 

Quain era uma pessoa solitária, não se envolvia muito com os índios, até porque assim foi orientado antes  de   aqui chegar.  Porém,   se isolar   era uma   escolha muito particular dele. Não se sabia muito sobre o antropólogo que viveu meses entre os Krahô. Tanto que após a sua trágica morte especulava-se na possibilidade de uma doença, como por exemplo, a lepra. Havia também falatórios sobre sífilis. De tudo se falou. Afinal, era preciso justificar de alguma forma aquela odiosa tragédia.

O Brasil vivia no período do Estado Novo e assim alguns estrangeiros que por aqui viviam poderiam vir a ser vigiados – pelo menos é o que é contado no livro – em caso de serem comunistas ou algo parecido. Dessa forma, a reserva de Quain sobre a sua vida se tornava ainda maior. Essa reserva aumentou ainda mais em torno do seu suicídio.

Manoel Perna, engenheiro que conheceu e conversou com o etnólogo conta diversas informações sobre a personalidade e costumes de Quain. Inclusive é da estada do americano em sua casa que surge o nome do livro, já que foram nove noites de histórias contadas. Essas nove noites foram dias de abrigo para Quain que viajava. O que Manoel conta é o resumo das histórias de Buell nessas nove noites que foram alternadas: a primeira em um momento, a segunda em outro e mais sete em outra
viagem do etnólogo. Eles conversavam sobre muitos assuntos e o engenheiro afirma que chegou a conhecer um pouco a personalidade do misterioso homem.

O narrador, que é obcecado por essa história entrevistou Lévi-Strauss em Paris. Ele se pronunciou sobre sua visita ao Brasil e sobre a emoção que sentiu quando soube das pequenas culturas indígenas que estavam sendo ameaçadas de extinção, ou sendo exterminadas aos poucos. Strauss afirmou ainda que “toda cultura tenta defender sua identidade”. É possível perceber no livro, alguns relatos e narrativas se comunidades indígenas que lutavam entre si, a fim de se preservar cultural ou territorialmente. 

Ou seja,  não   necessariamente   era   o   homem   branco   que   ameaçava   a   existência   dessas comunidades. Eles mesmos lutavam e guerreavam. Esse fato já desconstrói algumas ideias paternalistas de que o índio é “coitadinho” e que o homem branco era o único algoz. Porém, apesar de alguns conflitos, a maioria das tribos mantinha uma relação amistosa. Antes de visitar os Krahô, Quain havia visitado a comunidade dos Trumai e achado os “chatos e sujos”, eles pediam várias coisas materiais para ele, que sempre recusava. 

Parece que ele já estava pensando em morte, pois segundo Manoel Perna afirmou, por exemplo, que o americano falara que os Trumai viam na morte uma saída para seus problemas  – “uma libertação dos seus temores e sofrimentos.” Há ainda relatos de Perna sobre possíveis prenúncios de morte que ele poderia ter recebido. Em um ritual dos Trumai, através do qual buscava- se a cura de uma mulher. Era uma cerimônia, muito fechada e foi informado a Quain que se entrasse ele morreria. Ele ignorou e  entrou   mesmo assim.   Em  outra  ocasião,   enquanto caçavam aves  para  a retirada das penas, disseram-lhe que “um pássaro de cabeça vermelha a que chamavam de ‘lê’ era o anúncio da morte para quem o visse. Pouco depois ele deparou com a aparição fatídica e preferiu acreditar que lhe pregavam uma peça.”  

Manoel   Perna   afirma   que   ao   lembrar-se   das   histórias   do   antropólogo,   só chegava à mente dele a imagem do corpo do antropólogo enforcado, cortado com gilete no pescoço e nos braços, com sangue pelo corpo, pendurado acima de uma poça de sangue. Foi essa a cena que os índios descreveram para ele, quando foram dar a notícia. Nove Noites traz diversas questões, as quais são impossíveis de serem todas analisadas nesse texto. Porém, há a pretensão de abarcar o máximo possível de questões trazidas pelo livro. Questões sobre o antropólogo americano, questões sociais e políticas da época, questões indígenas, entre outras.

O narrador, que é jornalista, conta as histórias das suas andanças pelas florestas.Sua primeira viagem foi em 1967, quando tinha seis anos. Ele foi acompanhado pelo pai, que procurava fazendas para comprar. Comprara duas: uma na região do Araguaia e outra na região do Xingu. Nessas fazendas ele viveu algumas aventuras na infância, inclusive um acidente de avião com o pai. Ele nem imaginava que retornaria um dia àquelas matas para investigar obsessivamente circunstâncias de um suicídio. Em sua narrativa ele afirma, entre outras coisas, que ficou guardada em sua memória a imagem do Xingu como um inferno e que ele não “entendia o que dera na cabeça dos índios para se instalarem lá.” Para ele parecia burrice, um masoquismo ou até mesmo uma espécie de suicídio. O antropólogo que o levou à região, em 2001 também se questionava o porquê de os índios estarem instalados ali.

 Entre algumas coincidências entre o narrador e Quain, há o fato de ele ter estado, 62 anos depois, no mesmo local e data em que se suicidara o etnólogo: dia 02 de agosto.   O americano escrevia muitas cartas a seus amigos e parentes. Algumas, não chegavam a ser enviadas, como essa que seria para Margaret Mead, escrita no dia 04 de julho   de   1939   com   o   seguinte   trecho:   “O   tratamento   oficial   reduziu   os   índios   à pauperização. Há uma crença muito difundida (entre os poucos que se interessam pelo índios) de que a maneira de ajuda-los é cobri- los de presentes e ‘elevá-los a nossa civilização’ [...]”


Continua...



Rafaela Valverde




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