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segunda-feira, 17 de julho de 2017

Sem contatinhos

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Não, eu não estou mais afim de ser contatinho. Eu não quero mais ser um dos contatinhos de alguém. Eu não mereço ser só isso. Eu agora estou querendo muito mais que isso. Quando terminei meu último relacionamento, depois de termos reatado há menos de dois meses, eu até fiquei feliz com a solteirice que surgia naquele momento. Mas é claro que tinha que comemorar. Eu não ia ficar por baixo e choramingar o fim de um namoro falido. Tinha mesmo que comemorar minha solteirice e fazer postagens dizendo que ia pegar todo mundo e encher o celular de contatinhos. 

É claro que isso não aconteceu. Desde que terminei meu namoro, em fevereiro, eu só fiquei com uma pessoa e é com quem eu tenho estado, de vez em quando, até então. Porque descobri que não tenho mais interesse em ser e em ter contatinhos. Essa minha fase já passou há um tempo e é algo muito pequeno para mim. 

Eu quero mais, muito mais. Eu sou mais. Eu preciso de mais. Eu quero alguém que eu possa ligar quando algo me acontecer, mesmo que seja uma coisa idiota, apenas algo engraçado, como um tropeço no meio da rua; eu quero alguém que pegue na minha mão quando eu estiver mal e beije minha nuca só pelo ato de me acarinhar. 

Eu quero alguém que cozinhe pra mim, compre vinho e me faça sentir importante. Eu quero acordar com alguém me olhando. Eu quero edredom e brigadeiro em dias frios. Eu quero preparar jantares desastradamente românticos como só eu sei fazer. E quando a comida queimar ou passar do ponto eu quero simplesmente pedir uma pizza e que a pessoa me olhe compreensivamente e diga que essas coisas acontecem e não ajude a me sentir ainda mais culpada.

Eu quero sair para comprar roupas e trazer roupas masculinas junto com as minhas, eu quero escrever poemas e cartas, eu quero me sentir tão especial, mas tão especial, que ninguém  vai ter a capacidade de me colocar para baixo. Eu quero que o assunto flua entre mim e essa pessoa e não apenas ter que ficar inventando assunto e falar do tempo chuvoso.

Eu preciso de algo que meros contatinhos nunca vão me proporcionar. Eu quero uma coisa que saídas casuais, amizades coloridas ou sei lá mais o quê, não vão conseguir dar conta. Eu quero ter com quem compartilhar minha vida, alguém que realmente se interesse por ela. Alguém que me escute, mas também que eu possa escutar. Porque eu amo escutar. Eu quero alguém que só de me olhar já me dispa e me deixe afim de qualquer coisa.

Contatinhos, por melhores que sejam, por darem a ilusão de liberdade, por mais fofas que sejam as pessoas envolvidas ou ainda por mais tempo que dure a amizade colorida, não dá tempo para desenvolver todas essas coisas que eu quero, todas essas coisas que minha alma quer e todas essas coisas que fazem os olhos brilhar as mãos tremer e surgir um envolvimento emocional, real, daqueles que todo mundo pretende ter um dia.




Rafaela Valverde

domingo, 16 de julho de 2017

Casas de sentimentos

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Nós somos casas de sentimentos. Todos nós. Não existe uma pessoa que não tenha sentido um dia, não existe alguém que não tenha amado um dia. Por mais que hoje não queira amar, já amou, já sentiu. Somos poços transbordantes de sentimentos.

Um texto de um amigo do Facebook me inspirou para escrever sobre isso. Sobre o sentimento. Sobre a expectativa dos sentimento que às vezes depositamos no outro ou em nós mesmos. Em nós mesmos, porque não queremos mais sentir e sentimos ou no outro, porque gostaríamos que ele sentisse e ele não quer ou não consegue mais.

Ainda que digamos que não criaremos mais expectativas porque elas não são animais de estimação e muitas outras piadas que contamos sobre o assunto, sempre há uma pontinha de expectativa. Por mais recôndita que esteja, por menor que seja, ela vai estar lá. A danada da expectativa. Por mais que tentemos evitar, sempre queremos que o outro faça ou sinta por nós minimamente o que fazemos ou sentimos por ele.

Sim, esperamos reciprocidade. Sempre. Não existe essa pessoa que diga que é capaz de sentir sozinha, sem esperar esperançosamente (perdoem - me a redundância!) que o outro sinta, se não a mesma coisa, pelo menos um pouco parecido. Queremos atenção, cuidado, afeto, alguém que se interesse por nossas vidas, para que nos sintamos menos medíocres.

Mas como meu amigo do Facebook escreveu, ninguém merece depositar cargas emocionais, expectativas, sentimento, atenção, cuidado em alguém, sem receber nada em troca. Nem ao menos um: "como foi seu dia?" Ninguém merece e ninguém precisa disso. É por isso que cada vez mais escondemos e evitamos nossos sentimentos. O ato de sentir é tão forte que precisamos evitar o máximo que for possível. Limpamos a casa, tiramos os móveis, desinfetamos -na. E ela deixa de ser a casa dos sentimentos bons para ser a cada do medo, da desconfiança, do olhar triste e até mesmo da frieza. Ninguém merece uma casa assim. Ninguém merece uma casa vazia. 





Rafaela Valverde

domingo, 2 de julho de 2017

Como saber se você é machista


Se você acha que existe mulher para namorar e outra só para pegar e mulher fácil e difícil, você é machista. E dos grandes! Se você acha que mulher que "dá" (entre aspas porque não damos porra nenhuma pra você, só estamos testando se o equipamento é bom) na primeira vez que sai, não presta pra ter um relacionamento você é um filho da puta machista.

Se você acha que só mulher pode fazer serviços domésticos e não consegue aprender mais nada além disso, você é machista. Se você acha que mulher deve ter filho, porque é biologicamente programada para isso, você é machista, querido. Se você põe a culpa da sua escrotidão nas mulheres que estão ou passaram na sua vida, adivinhe? Machista.

Se você ainda acha, em pleno século XXI, que mulher não goza, não precisa gozar ou não gosta de sexo, você é um machista, escroto e ignorante, que não conhece mulher. Além de nojo, só consigo ter pena de você. Se você acha que mulher não consegue carregar peso, ou qualquer outro tipo de trabalho braçal ou ainda não pode sair sozinha, com amigas você é um 'MACHISTÃO', OTÁRIO!

Se você acha que sua namorada ou esposa não pode fazer qualquer coisa sem você, ou usar saia curta ou fazer a porra que ela quiser, você é um cuzão machista e merece ficar sozinho. Se você acha que mulher é só um pedaço de carne que merece ser assediada na rua e só uma buceta para você meter seu pauzinho incompetente, você está fazendo muita coisa errada e nem sabe o que é sexo! Se você faz muitas dessas coisas que eu sei que você faz aí, você é tudo isso que eu falei e também é um egoísta que não merece compaixão talvez nem de sua mãe, que a propósito, é uma mulher.

O mais engraçado é que alguns homens fingem que não sabem que estão sendo machistas. Se fingem de santos e ainda se ofendem quando ouvem verdades e são colocados em seus devidos lugares. Coitadinhos de vocês, tão sofridos com séculos de opressão e misandria.  E agora, em pleno 2017 ainda têm que aguentar mi mi mi de feminista peluda... Tô realmente muito indignada por vocês, 'omis'.

E por fim, devo ainda trazer nesse texto que se você é homem, não deixa uma mulher se pronunciar, falar o que ela pensa e ser ela mesma, você é muito machista. Há que se lembrar ainda da objetificação do corpo da mulher e da posse. Essas duas coisas abjetas causam muitos estupros e feminícidios brutais a cada dia. Somente no Brasil, a cada onze minutos, uma mulher é estuprada e a culpa é de vocês homens, de quem estupra, e não da mulher que está de saia curta bebendo na balada. Porque afinal de contas, 'omis' escrotos usam a porra da roupa que querem, se embriagam quase diariamente e não têm seus corpos violados por ninguém. Entendam isso de uma vez por todas: vocês não são donos das mulheres, vocês não são donos de mais nada. O patriarcado acabou, os homens não mandam em porra nenhuma. Aceitem e deixem de ser bebês chorões. Parem que tá feio!




Rafaela Valverde

Um dia ela percebeu


Um dia ela percebeu que só precisava dela mesma
Entendeu que é incrível mas também não presta
Não presta pra levar desaforo pra casa
Não presta pra ser menos do que é
Está mais para pôr-do-sol
Do que o nascer
O nascer é calmo, ela não
Ela entendeu que é sombria, mas ilumina todos ao redor.
Seu coração está leve
Suficiente para a alma que não aguenta pesos
De pesada basta a vida
Mas ela aguenta
E vive
Ela percebeu que se basta
Percebeu que só precisava de si mesma para viver
É fluída
É volúvel
É maravilhosa, costumam dizer
Mas, meu Deus, está sendo consumida pela solidão
Por que isso?
Por que é que ninguém quer pegar na sua mão?
E nem amá-la nos momentos de crise?
Será por causa da sua descoberta?
Ela sabe que só precisa dela
Tem certeza disso.
Mas está o tempo todo presente
Ela e ela mesma
Não é uma opção
O que ela gostaria de ter era a opção de ter mais alguém por perto
Para segurar sua mão
Para te abraçar no frio
E não mais ser consumida pelo tédio de ser sozinha
Estar  consigo mesma é maravilhoso
Tão maravilhoso, que ela quer dividir com alguém.
Um dia ela percebeu.



Rafaela Valverde



segunda-feira, 26 de junho de 2017

Não, não é sempre que queremos compromisso!

Um tempo depois de eu ter escrito sobre  o assunto aqui e em pleno 2017, século XXI ainda existem homens que acham que as mulheres que se aproximam, que vão atrás, que demonstram interesse, mandam mensagem, etc., querem casar com eles e ter filhos. Queridos, acordem! Baixem a bolinha e o ego, bebês! A gente só quer pegar vocês mesmo. Dar uns beijos, levar pra cama, ver se o desempenho é bom e tchau.
.
Homens são criados com tamanho egocentrismo, que se acham os reis, os donos do mundo. Esse é um dos ônus do patriarcado. ônus para nós, mulheres, porque para eles é um puta bônus. Para os homens, as mulheres devem estar aos pés deles, afins deles e sempre tem que querer estar com eles, os gostosões.


Estou escrevendo isso aqui por que ouço as pessoas falarem, especialmente mulheres falando sobre isso. E já aconteceu comigo várias vezes. Perguntamos como eles estão, damos bom dia ou nos preocupamos e os caras já pensam que a gente quer compromisso. É uma coisa tão sórdida esse comportamento masculino, que dá a entender que só precisa ter educação quando quer namorar, só se importa e se preocupa se quiser casar e construir família. Quanta idiotice! Quanta falta de amor ao próximo!

Uma pessoa que está com você, ficando, tendo um sexo casual, amizade colorida ou sei lá o quê, não merece ser tratada como gente, não merece ser cuidada e ter alguém que se preocupe com ela. Ela é só alguém que se come e pronto. Até porque mulher que se come fácil não pode ser a mesma que eles namoram, não é mesmo? Eu tenho odiado alguns homens heterossexuais tanto quanto tenho odiado o machismo, pois em muitos casos estão intrinsecamente ligados.

Não dá para ser tolerante com machismo, com homens machistas. E eu não sou. Tenho aprendido cada vez mais a ser menos tolerante com "omi" escroto. Quando vou conversar com qualquer um que seja, deixo bem claro quem sou e com essa sinceridade que Deus me deu, falo o que realmente importa e o que eles precisam saber e ouvir. Não estou aqui para aturar homem pretensioso que acha que eu quero compromisso com ele só porque lhe dei bom dia. Eu não sou obrigada, nós mulheres não somos obrigadas a nada, nem a termos compromisso. Fica a dica!


Rafaela Valverde


sábado, 24 de junho de 2017

Creme de tratamento Monange - Hidratação Intensiva

O creme de tratamento que usei na minha hidratação recente foi o da Monange, da embalagem rosa. Ele promete hidratação intensiva, mais nutrição. a embalagem informa que ele é condicionador e sem sal, além de conter o "inovador ingrediente Bio Form e extrato de oliva, que aliados à formulação, combatem os quatro sinais de ressecamento dos fios".

O produto promete mais hidratação e selar profundamente a estrutura do fio, melhorando aparência e textura. E tudo isso e três minutos. Que é o tempo de ação indicado na embalagem. Fora que a textura é ótima, viro o creme e ele não cai. O cheiro é normal, não é ruim, enjoativo nada. E promete o que cumpre, preciso dizer!

Eu não sei exatamente qual o valor unitário, mas sei que é bem baratinho. Uns seis golpinhos. Eu não sei porque comprei numa promoção incrível: dois shampoos, um condicionador e esse creme por 22,00. Hahahaha amo promoção assim! 

O que eu quero dizer desse creme é que ele virou meu novo queridinho. Ele é muito bom. Não vou mais deixar de comprar, funcionou bem no meu cabelo e hidratando direitinho, com as técnicas certas, o resultado é visível. E a partir da aplicação, já se nota. Dá para ter cabelo bonito e bem tratado com pouco dinheiro.


Rafaela Valverde

História da flor - Carlos Drummond de Andrade


Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida

Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.

Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.

– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!




Rafaela Valverde

Estava hidratando meu cabelo errado!


Eu estava hidratando meu cabelo errado. Eu estava fazendo tudo muito errado com meu cabelo. Estava sentindo que ele estava constantemente ressecado por mais que eu hidratasse. Vendo um vídeo da Mari Morena sobre os erros cometidos durante a aplicação da máscara no cabelo e descobri ou percebi que eu estava cometendo muitos daqueles erros.

O principal erro foi não separar o cabelo em mechas menores para aplicar o creme, Eu estava basicamente separando o cabelo em duas ou três partes e jogando o creme, enluvando mentirosamente. Rsrsrs Então, já sabe que o resultado não estava sendo nada satisfatório, não é mesmo? Então, eu também estava aplicando a máscara hidratante  com o cabelo encharcado, estava passando do tempo indicado na embalagem e não estava passando condicionador depois de enxaguar.

Pois bem, decidi fazer isso diferente. Sequei um pouco o cabelo antes de aplicar e depois de lavar. Tirei o excesso de água com minha camisa de algodão, aí depois separei mechas bem finas e enluvei bastante. Segui o tempo indicado na embalagem que eram três minutos e enxaguei bem, aplicando depois o condicionador nas pontas e penteando com os dedos por mais ou menos um minuto.

Então, é outro cabelo. Só com essas pequenas mudanças na aplicação das máscara. O cabelo está definido, macio, com aquele aspecto de hidratado que há algum tempo não conseguia. Além do brilho, claro. Gostei bastante disso e não vou deixar mais de fazer essas pequenas coisas. Pequenas, mas que dão muita diferença. Vou deixar de ser relapsa com meu cabelo. Daqui a pouco posto sobre a hidratação que usei. Fiquem ligados!



Rafaela Valverde

terça-feira, 20 de junho de 2017

Burocracia ou burrocracia no ILUFBA


Cá estou eu cercada de burocracia. Ou seria burrocracia? A UFBA está impregnada desse ranço do século passado. Todos nós alunos da UFBA estamos cercados desse sistema que não ajuda ninguém, em maior ou meno medida. O fato é que perguntei a algumas pessoas e especificamente o Instituto de Letras, onde eu passo maior parte do meus dias aqui dentro é um dos mais burocráticos.

Pois bem, para o colegiado de Letras Vernáculas receber contratos de estágio dos alunos para assinar, os alunos precisam entregar cópias do histórico e comprovante de matrícula. Até aí tudo bem, se não fosse um formulário com assinatura de três professores. Até aí tudo bem, estamos em sala de aula constantemente com os professores, mas há outro problema: eu, por exemplo, estou tendo mais dificuldade em encontrar professores do que eu imaginava. Só tenho aula às segundas, quartas e sextas. Já vou perder a sexta por causa do São João e uma das minhas professoras é estagiária de pós graduação, não pode assinar, tenho que ir atrás do titular. Desde ontem bato nas portas dos gabinetes dos professores sem sucesso. Consegui ontem uma assinatura. Hoje ficarei aqui até à noite para conseguir outra e talvez consiga uma outra a partir das 14 horas de amanhã.

Beleza, entro com o contrato amanhã à tarde. Mas aí, o colegiado exige mais 72 horas de prazo para analisar e assinar o contrato, não adianta vir antes. É no mínimo 72 horas mesmo. Sem conversa. E lhe lá. Com esses três dias úteis para assinar meu contrato eu só consigo pegá-lo na segunda à tarde, talvez terça pela manhã. Tenho prazos para cumprir e estou nessa ladainha desde sexta feira passada, hoje é terça.

Eu não compreendo que sistema é esse, sinceramente. Como assim, eu tenho que provar para a universidade que frequento as aulas? Por que um prazo tão grande para analisar as disciplinas cursadas, carga horária, etc? Não  são todos os alunos do Instituto que solicitam ao mesmo tempo, então não há demandas como essas diariamente. Eu só gostaria de entender, por isso o meu questionamento. Não explicam nada para a gente, a gente só tem que aceitar, mesmo não concordando.

Até porque não se sabe o motivo dessa rigorosa e chata burocracia. Pode ser que já tenham havido problemas no passado, porque as pessoas são corruptas, isso são. Mas será que não há uma preguiça de pensar em outra solução menos burocrática? Será que os próprios alunos não teriam alguma sugestão? Já que é nossa realidade, nosso dia a dia, nosso estágio, nossa correria. O que não pode é continuarmos calados, aceitando esse processo anacrônico, que só faz atrapalhar mais ainda a gente. A burocracia é um dos maiores atrasos desse país. Coisas que podem ser resolvidas em poucas horas levam dias! E temo recursos para isso, humanos e tecnológicos, o que falta mesmo é boa vontade, empatia e usar a cabeça, especialmente nos serviços públicos.


Rafaela Valverde

terça-feira, 6 de junho de 2017

Tristeza indicativa


A dor que eu sinto não tem nome. A psicanálise fala da dor de existir, e acho que a minha dor se aproxima um pouco disso. Não é uma dor de perder um filho, nem os pais, nem o cônjuge... Todas essas dores podem ser nomeadas.  Mas essa que eu sinto é dor de quê?  Eu não sei. Na verdade eu até sei e não suporto mais. E também não é uma dor particularmente física. Mas é física também. 

É física, é emocional, é psíquica. Invisível, mas tão presente que eu não consigo mais ignorá-la. Tem dias que já acordo com ela, presente. Em outros dias acordo bem, só com raiva por ter acordado cedo demais. Mas ao longo do dia a dor chega. Mas há dias, raros, em que ela não vem. E nesses dias me sinto um pouco mais em paz comigo mesma.

Eu não sei dizer que dor é essa. Eu não sei explicar. Não é dor de amor, talvez seja dor de falta dele; não é angústia, não é solidão. É tudo junto e mais um pouco. É tão intenso, é tão triste que só o que me vejo fazendo do nada, é chorar. Lágrimas jorram dos meus olhos, eles só vivem inchados e reclamões, não suportam mais produzir tantas lágrimas.

E assim vou vivendo, carregando essa dor sem nome. Essa dor que pode considerada descabida para muitos, mas para mim não é porque ela está aqui dentro de mim. É uma tristeza que vai e vem, muitas vezes incontrolável. Que me avisa que estou sentindo falta de algo ou de vários algos. É uma tristeza indicativa e insistente.


Rafaela Valverde

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Das 8h às 17h


Nunca me imaginei vestindo um uniforme e trabalhando das oito às dezessete. Assim como nunca me imaginei, nunca trabalhei oito horas na vida. Também nunca tive um salário de mais de três dígitos, pois os salários baixos são mais compatíveis com a carga horária de seis horas por dia. Eu fico tentando entender como será essa rotina, como será a cabeça dessas pessoas que a vivem. Claro que eu tenho minha mãe em casa, mas queria visões de fora sobre perder no mínimo quatro horas por dia só no trânsito - o que é condizente com a realidade do trânsito de Salvador e o tempo gasto parado; depois ainda trabalhar oito, nove horas e ainda passar uma ou duas horas de almoço dentro da empresa, ou nas proximidades. É como se vidas inteiras girassem em torno de empresas, de empregos, de negócios, de lucros. Vejo colegas andando juntos na rua, com os uniformes do trabalho, indo ou voltando do almoço. Sim às vezes escuto as conversas alheias e sei que muito do que conversam se relaciona à empresa ou aos colegas. Penso que é por isso que as pessoas imploram tanto pela chegada da sexta feira, por que ter uma vida que gira em torno de uma atividade laboral deve ser bem extenuante. Eu analisando de fora, vejo que isso é triste, sei lá, não sei bem se é triste a palavra que queria usar. Se eu, só estudando e agora estagiando, às vezes não sobra tempo para estudar imagine então quem trabalha o dia todo e faz uma graduação à noite. Quase não tem tempo de estudar. Deve ser bem puxado e não imagino minha vida girando em torno de nada que não dará lucro a mim mesma. No final do dia as pessoas já saem tão cansadas do trabalho e ainda pegam o trânsito miserável dessa cidade. E no outro dia precisam acordar mais cedo para conseguir chegar no horário, pois também tem trânsito... Eu seria bem infeliz em uma rotina dessa. Não posso chegar aqui e mentir, dizer que é melhor viver refém de uma empresa qualquer do que ficar sem trabalhar formalmente. Sim, porque esse é o discurso da maioria das pessoas que eu conheço e talvez eu seja a maior errada nisso tudo, mas é o que eu penso. Não entendo como as pessoas podem sair desses trabalhos sorrindo, devem ser muito felizes. O resto que sobra das suas vidas deve mesmo ser muito bom para que elas sorriam tanto, porque eu sinceramente não entendo.




Rafaela Valverde

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Eu não sei mais lidar com tudo o que sinto


Acordo todas as manhãs sentindo falta de algo, sentindo falta do que tive, do que não tive e do que ainda vou ter. E o que eu não vou ter nunca, fica pairando acima da minha cabeça. Todos os dias. Como uma nuvem, opaca e sem vida. A nuvem joga sua chuva sobre minha cabeça e explode um turbilhão de pensamentos sufocantes, aterrorizantes. Mas que eu não consigo evitar.

Como assim? Você diz que quer algo que nem sabe o que é. Mas, é mentira! Você sabe, sim! Sempre soube. Mas, parece que como tudo em sua vida, o fato de você querer muito algo, afasta decisivamente o algo da sua vida. Você é uma azarada de merda. Você afasta tudo o que quer. E você nunca quer o que tem. Você é idiota, porra!

E esse vazio? Cura como? Isso que te faz chorar escondido à noite. Como resolve? Com baladinhas, cheias de gente tombadora com maquiagem "cheguei" e beck na mão? Com sexos casuais, frios e mal feitos? Com revolta e melancolia? Como resolve?

Se eu soubesse não estava passando por isso. Eu queria simplesmente não passar por nada. Eu abriria mão de viver só para não sentir. Eu preciso de um entorpecimento constante. Por isso, o sono excessivo, por isso as leituras e as séries, por isso a escrita compulsiva, por isso as garrafas de catuaba e vinho barato pela mesa de centro. Por isso, as noites em claro chorando e fumando cigarro após cigarro.

É por isso, tudo isso. Porque eu não sei lidar com a dor de sentir, com a dor de existir e ser eu mesma. Eu não sei mais encarar uma baladinha e descontrair com ela. Ao contrário, fico tão tensa e mal humorada nas festas, que sento em um canto, falando mal de todo mundo, sozinha. Sofá de boate tem sido meu lugar preferido ultimamente. Destilo veneno e ironia. E as lágrimas de tristeza ficam caindo naquele escuro, é onde melhor posso chorar. Choro enquanto danço também! Sim, sociedade, é só isso mesmo o que eu posso te oferecer!



Rafaela Valverde

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O mundo do menino impossível - Jorge de Lima


Fim da tarde, boquinha da noite
com as primeiras estrelas
e os derradeiros sinos.

Entre as estrelas e lá detrás da igreja
surge a lua cheia
para chorar com os poetas.

E vão dormir as duas coisas novas desse mundo:
o sol e os meninos.

Mas ainda vela
o menino impossível
aí do lado
enquanto todas as crianças mansas
dormem
acalentadas
por Mãe-negra Noite.
O menino impossível
que destruiu
os brinquedos perfeitos
que os vovós lhe deram:
o urso de Nürnberg,
o velho barbado jagoeslavo,
as poupées de Paris aux
cheveux crêpes,
o carrinho português
feito de folha-de-flandres,
a caixa de música checoeslovaca,
o polichinelo italiano
made in England,
o trem de ferro de U. S. A.
e o macaco brasileiro
de Buenos Aires
moviendo da cola y la cabeza.

O menino impossível
que destruiu até
os soldados de chumbo de Moscou
e furou os olhos de um Papai Noel,
brinca com sabugos de milho,
caixas vazias,
tacos de pau,
pedrinhas brancas do rio...

“Faz de conta que os sabugos
são bois...”
“Faz de conta...”
“Faz de conta...”
E os sabugos de milho
mugem como bois de verdade...

e os tacos que deveriam ser
soldadinhos de chumbo são
cangaceiros de chapéus de couro...

E as pedrinhas balem!
Coitadinhas das ovelhas mansas
longe das mães
presas nos currais de papelão!

É boquinha da noite
no mundo que o menino impossível
povoou sozinho!

A mamãe cochila.
O papai cabeceia.
O relógio badala.

E vem descendo
uma noite encantada
da lâmpada que expira
lentamente
na parede da sala...

O menino pousa a testa
e sonha dentro da noite quieta
da lâmpada apagada
com o mundo maravilhoso
que ele tirou do nada...

Chô! Chô! Pavão!
Sai de cima do telhado
Deixa o menino dormir
Seu soninho sossegado!





Rafaela Valverde

Impressões da sala de aula


Comecei a dar aulas em uma escola estadual. Nunca pensei que fosse fácil, mas descobri que é bem difícil ser professora. Principalmente em escola pública, onde os meninos são jogados lá, sem ao menos compreender o porquê de estarem ali. Há ainda a falta de estrutura e também o grande uso de tecnologias, como o celular  e vídeos do youtube, que podem atrapalhar bastante a prática docente.

Os meninos ouvem música e ficam com o celular na sala, às vezes tocando música sem o fone de ouvido. Não há nenhuma noção de disciplina, nem do que deve ou não ser feito. Não há noção de hora certa para fazer determinadas coisas. Eu sempre ouvi na minha casa que existia hora para tudo, hora para se divertir e hora de ralar. Eu sempre ouvi que primeiro deve vir a obrigação e depois a diversão.

Percebo que não há respeito nem na presença do professor. Não posso ser hipócrita e dizer que eu fui uma criança e uma pré adolescente maravilhosa e bem comportada. Não fui! Mas os meus pais estavam presentes na escola por tudo que eu aprontasse e era quase sempre. Por mais que no fundo eles achassem que não adiantaria nada, eles iam. Já chegue a tomar uns tapas de minha mãe dentro da escola.

Mas, mesmo sendo rebelde, havia um mínimo de respeito ao professor. Mesmo que eu continuasse a conversar, porque lembro que era uma faladeira na sala, eu pelo menos entrava na sala e sentava na cadeira. Ao contrário de hoje. Os meus alunos não sentam, não param, não se interessam pelos conteúdos e nem me respeitam. Fora que saem da sala toda hora e outros alunos entram na sala a todo momento, me ignorando.

A estrutura da escola pública não ajuda muito a vida do professor não. Algumas salas nem porta têm e quando chove molham tem goteira. Não têm ventiladores e é péssimo estudar assim. Como eu, sozinha, vou fazer os alunos prestarem atenção em mim com tantas distrações e com tanta falta de estrutura? Eu até tento. Converso com eles, fiz um jogo e pretendo fazer o máximo para tornar minhas aulas interessantes mas é bem difícil.

É difícil porque esse interesse pela escola e pelo conhecimento não vem de casa. Os pais não leem. Mas também qual o pai que tem tempo ou dinheiro para comprar livro? Não estou defendendo, pois isso não justifica nada. Essa é uma sensação geral que eu tenho. As pessoas não estão nem aí para nada, não leem, não estudam, não se informam. Só querem saber de festas, alegrias da vida, novelas, youtube, whatsapp... Mas quem condenaria essas pessoas? O caminho do conhecimento é bem árduo.

Eu também gosto de todas essas coisas, mas amadureci cedo e entendi desde nova que havia momento para tudo na vida. Há hora para estudar, para brincar, para dormir. Deve haver uma adequação para tudo na vida, não é mesmo? Mas é isso, essa é uma das minhas reflexões sobre a sala de aula e sobre a prática docente. Espero que eu faça mais!


Rafaela Valverde


terça-feira, 2 de maio de 2017

Trem - Bala - Ana Vilela


Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar, alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós

É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito, é saber sonhar
Então fazer valer a pena
Cada verso daquele poema sobre acreditar

Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu
É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo em todas as situações

A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe para perto de mim

Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar
E sim sobre cada momento, sorriso a se compartilhar
Também não é sobre correr contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera, a vida já ficou pra trás

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui
Que a vida é trem bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir

Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá
Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui
Que a vida é trem bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir




Rafaela Valverde

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Eu não sei paquerar


Eu não sei chegar em alguém quando estou afim. Aliás eu não sabia o que era isso até bem pouco tempo. Passei nove anos em um relacionamento que começou na adolescência e durou até a vida adulta, depois disso a maioria dos meus encontros casuais foram através do tinder e meu último namorado era um colega da época da escola que eu conhecia há mais de dez anos.

Portanto, eu não sei como agir nessas horas. Não sei se me atiro ou recuo, não sei o que demonstrar e o que se espera que se faça. Sou bem inexperiente nessa área de iniciar um lance na verdade. Fiquei pouco tempo da minha vida solteira como estou hoje. Enfim, quando me interesso por alguém eu geralmente fico bem idiota, no sentido de não saber o que fazer.

Eu acho que vou ter que começar a me acostumar com isso e aprender logo, já que não se pode viver na seca eternamente. Não saio para balada com intenção de pegar ninguém, mas ainda que saísse não teria menor ideia de como fazê-lo. Talvez esbarrar com a pessoa "sem querer" ou direcionar a conversa para ela em um grupo, ou troca de olhares... Eu não sei, mas se alguém conhecer algum curso de como se faz isso me indica porque estou super precisando.

Tem exatamente 14 dias que eu não beijo ninguém, só para vocês terem uma ideia. E eu não quero mais ter o Tinder. De jeito nenhum. Aquilo me deu muita dor de cabeça. Mas a minha questão aqui não é essa. O que quero dizer é que sou péssima nessas coisas. Eu definitivamente não sei chegar em alguém que estou a fim, mesmo que seja apenas para beijar, e quase sempre é. Eu não sei o que falar e como me comportar. Eu não sei nada. Eu sou a ignorante nas artes de arranjar "gentes". E eu estou cada vez mais na seca de "gentes" e eu estou entrando em pânico. Claro que isso é ironia, o que me dá pânico mesmo é a volta das aulas em maio. Mas, sim estou carente. E sim, realmente eu sou uma oreba na arte da paquera.



Rafaela Valverde

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Altruísmo


Li essa semana num status de WhatsApp algo sobre altruísmo. Altruísmo é, entre outras coisas, fazer o bem sem esperar nada em troca. A partir desse status comecei a pensar em mim mesma, se eu sou uma pessoa altruísta. Acho que sou, pelo menos pelo fato de não querer nada em troca. Nem vejo como boa ação e sim como minha obrigação mesmo. Gosto de repassar informações, especialmente para quem esteja precisando. Gosto de ajudar as pessoas. Gosto de dar boas notícias, me preocupo com as pessoas.

Há algum tempo notei que sou assim. Me preocupo quando alguém falta durante aulas importantes. Fico tentando imaginar o que pode ter acontecido e se posso ajudar. Já fiz trabalho sozinha, quando era em dupla, mas para ajudar o colega mesmo. Coloquei o nome dele e disse para estudar, que a parte do slide eu fazia. Segurei a apresentação. Ele me agradeceu, mas já aconteceu de outras pessoas não agradecerem e eu não me importo. De verdade, eu nem lembro de todas as coisas que já fiz para ajudar as pessoas. Não fico remoendo isso.

Eu vejo imagens e posts sobre empregos e mando para quem acho que aquela vaga pode interessar. Eu converso com quem precisa, eu sou dessas que acha que as pessoas podem ter oportunidades. Sou dessas que faz coisas de forma automática sem se importar muito com o que pode ou não vir em troca. O mais engraçado é que só pensei nisso essa semana que vi essa imagem com a definição da palavra altruísmo e pensei que talvez com algumas atitudes minhas posso ser considerada altruísta. É claro que não vou dizer aqui. Não acho que devo divulgar. E não falo de assistencialismo ou caridade de dar dinheiro ou cesta básica para alguém. Falo de gentileza, de troca, de coisas que uma pessoa pode fazer por outra. Pequenas coisas, coisas cotidianas. Sim, eu gosto de mim.




Rafaela Valverde

terça-feira, 28 de março de 2017

Da cama às pequenas conquistas


Com quem vou dividir minhas pequenas conquistas? Sabe aquelas pequenas vitórias cotidianas como por exemplo, uma prova de uma matéria que eu estava muito ruim e consegui melhorar? Pequenas coisas, sutilezas da vida. E eu não tenho com quem dividir. Minha família não se interessa muito e assim não posso expressar toda minha empolgação cm uma coisa que parece tão pequena mas que para mim soa como uma superação nesse semestre.

Não há ninguém para comemorar nada disso comigo. Ter alguém por perto para dividir essas coisas é o que mais faz falta. Nossa, como é bom de noite contar nosso dia, nem que seja pelo telefone. Como é bom ouvir o dia do outro. Entre eu, minha mãe e minha irmã não há muito esse hábito de conversar horas. E há dias em que fico tantas horas calada que quando volto a falar estou rouca de tanto não falar

E olhe que nem curto falar tanto assim. Mas eu sinto falta dessa pessoa que vai me ouvir falar dessas pequenas conquistas diárias. Eu sinto falta de alguém que me lhe nos olhos e me escute ou simplesmente me escute mesmo que no telefone. Eu sempre tive momentos de reclamar de solidão, de me sentir sozinha, mas eu nunca me senti tão sozinha como nesses últimos dois anos. Sinto que ninguém se importa de verdade comigo e eu não tenho relações profundas com pessoas.

Eu tenho uma amiga mais próxima, que faz às vezes de ouvinte, mas não é disso que estou falando. Não sei se é possível alguém entender minhas elucubrações. E nem sei se quero. O que sei é que preciso de gente, preciso de gente que me escute, me enxergue, me entenda ou pelo menos tente, sem julgamentos. Só isso. Preciso de gente para conversar comigo e para me perguntar como foi o meu dia, mas não só perguntar, preciso que escute de forma interessada. Não simplesmente pergunte por perguntar. Eu quero apenas que seja comigo como eu sou. Eu quero um sonho, uma ilusão.




Rafaela Valverde 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Então eu choro


A ansiedade me toma por completo. Tenho oitocentas atividades da faculdade para fazer, aulas para preparar e ainda assim passo o final de semana deitada vendo série. Procrastinando. Evitando as atividades que estão se tornando cada vez mais chatas, a medida em que o tempo passa.  Fico sofrendo porque tenho que fazer tantas coisas e ao mesmo tempo fico evitando fazê-las porque as acho chatas.

Nem me olho mais no espelho porque tenho medo de encarar minha olheiras. E quando finalmente tenho coragem de olhar, não olho meus olhos vermelhos. Vermelhos de tanto chorar. Às vezes ficam inchados também. Saio e lavo o rosto, mas não adianta nada e temo que as pessoas percebam. Minha mãe ainda ontem perguntou o porquê desses olhos inchados, se eu estava chorando.

Sabe, é preciso chorar. ás vezes as lágrimas vêm  de forma automática. Densas, chegam a pesar no rosto. Não posso evitá-las. Só enxugo, mas elas caem minutos depois. Sempre voltam a cair, me deixando preocupada  e ainda com mais vontade de chorar. Daí no outro dia acordo me sentindo seca, como se tudo tivesse sido vertido junto com as lágrimas. Tudo que havia de alegre em mim escorreu pelo meu rosto até o chão e morreu.

Mas no dia seguinte preciso reagir e acordar como se nada tivesse acontecido. Preciso viver a vida que Deus me deu. Mas por quê? Por que mesmo que Deus me concedeu a vida? Ela é tão sem sentido, aleatória e injusta e a gente ainda tem que sentir grata. É piada? Parece que sim. Fico pensando em quantas formas existem de se matar. Fico pensando em morrer todos os dias que abro os olhos e percebo que estou viva, ainda. A ansiedade me corrói, me come por dentro, então me sinto oca, vazia. Continuo procrastinando o que acho chato e adiantando o que me oferece um momentâneo e ilusório prazer.


Rafaela Valverde


quinta-feira, 16 de março de 2017

Uma manhã


A minha imagem no espelho era deprimente. Olhos inchados e vermelhos, minhas olheiras quase iam até o queixo e  me sentia um caco humano. Meu cabelo estava uma bosta. Não sei como as maioria das mulheres conseguem ser mulheres, administrar tanta coisa, ainda ter cabelo e cuidar dele. Fiquei por uma fração de segundo ali olhando para minha imagem aterrorizante, mas me lembrei que tinha que trabalhar. Ainda era meio da semana e eu com cara de ressaca. O banho foi frio e rápido, como sempre. Eu vivia de saco cheio de tudo, até um banho demorado enchia me irritava. Uma xícara fumegante de café me esperava no balcão. Minha mãe era a única pessoa legal desse mundo. Levei a xícara para o quarto, enquanto tentava entender o que meu cabelo queria de mim.

Peguei a primeira camiseta que vi na minha frente e uma calça jeans. A camisa era rosa. Bom, alguma coisa diferente do meu estado de espírito sombrio, né? A minha apatia estava refletida em tudo que se relacionava a mim. Meu quarto era uma bagunça ridícula e eu sentia dor de cabeça, me lembrei ao olhar ao redor. Tomei umas aspirinas, calcei meu all star e saí de casa. Na rua, as pessoas estavam tão felizes. Não entendo o porquê de as pessoas sempre estarem sorrindo. Tudo é uma porcaria. Não consigo mais ficar satisfeita com algumas coisas. Minha vizinha lava calçada, enquanto escuta sertanejo. Por que alguém lava calçada, gente? A chuva não é para fazer isso? Não entendo isso, as pessoas se comprometem além do que é necessário para fazer coisas desnecessárias.

Continuei andando para chegar ao ponto de ônibus, eu estava atrasada. Já eram quase nove horas. Mas que se dane, eu quero me livrar de tudo e espero que esse emprego voe pelos ares. A minha infelicidade maior é estar trabalhando em um lugar que odeio em uma área que não é a minha só porque paga mais e eu preciso manter a casa. O que minha mãe ganha não dá para muita coisa e ainda tem o tratamento do meu irmão, Vinícius. Ele tem câncer. Todas essas coisas me deixam infeliz. A minha área é muito mal remunerada e valorizada, então minha mãe conseguiu esse emprego na assessoria de um vereador na época da eleição há dois anos. Ganho muito bem, mas odeio trabalhar pra ele. Odeio esse ambiente de política. Odeio a minha vida!

Meu ônibus já saía quando eu cheguei no ponto e não consegui pegá-lo. Praguejei, xinguei a mãe do motorista e toda a sua próxima geração. Eu odeio andar de ônibus. Bem, mais uma coisa para a minha lista de ódios. Respirei fundo e sentei no banquinho do ponto, teria que aguardar o próximo ônibus que chegaria sabe-lá-Deus-quando. Observei as pessoas: todas fingindo felicidade como sempre. Uma mocinha falava ao celular toda derretida com o namorado. As pessoas são patéticas.

Adiante, em frente ao ponto de ônibus, um dos shoppings mais imponentes da cidade. Um lampejo de ideia passou em minha cabeça e eu segui rapidamente seu impulso. Atravessei a rua e ao entrar no shopping entrei no salão de beleza que estava ali, não sei desde quando, na estrada do shopping. Na verdade, eu só havia entrado nesse shopping umas três ou quatro vezes. Adivinhem? Eu também odeio shoppings.

Como era de se esperar e devido ao horário o salão ainda estava vazio. "Quero cortar o cabelo!" A moça olhou para mim confusa. Ela deve ter imaginado que era muito cabelo. E era mesmo. "Curtinho, igual ao da Sandra Anemberg, aquela da globo" Sentei na cadeira e fiquei girando que nem criança. Começou o corte. Cada tufo daquele cabelo horroroso que caía eu me sentia mais leve, mais aliviada, não feliz, mas pela primeira vez em anos eu fazia o que realmente queria e seguia um impulso.

Cerca de meia hora depois o corte era finalizado e eu parecia outra pessoa. Era um corte moderno, repicado. E eu parecia mais jovem. Não bonita, jovem. Esbocei um sorriso, enquanto virava a cabeça de um lado para o outro. Paguei e saí saltitante. Outra ideia era gestada em minha mente.  Peguei um táxi. Que se fodam os ônibus, hoje vou esbanjar. O trânsito estava caótico aquele horário, mas o taxista estava ouvindo rádio e eu estava cantando as músicas. Nunca tinha tido esse comportamento feliz. De repente as coisas mudaram um pouco e fui tomada por uma coragem inesperada. Tinha que tomar decisões na minha vida, o que eu não podia mais era acordar daquele jeito todas as manhãs.

Em um um momento, calei a boca, fechei os olhos e recostei a cabeça no assento do carro, pensei em todas possibilidades e consequências. Quando abri os olhos já estava na frente da câmara de vereadores. Paguei e entrei rapidamente. Sem mais titubeios. Fui até minha sala e através do nosso serviço de comunicação pedi para falar com meu chefe ainda naquela manhã. Ele me recebeu uma hora depois, elogiou meu cabelo e se mostrou surpreso quando eu pedi demissão. "Mas por quê?" "Não quero mais trabalhar aqui, pra você. Tenho alguns projetos que pretendo realizar."  Disse que estava chateado mas não havia o que fazer. Depois de um tempo, saí da câmara. Pra sempre!

Voltei pra casa, de ônibus claro. Assim que entrei em casa, liguei para meu pai: "A partir de hoje você vai arcar com o tratamento de Vini. É seu filho e eu não vou ganhar mais como antes. Saí de lá." Ele estranhou minha atitude e disse que minha mãe não queria ajuda dele. "Ela não tem que querer nada. Não vou mais me sacrificar por que ela não quer que você faça sua obrigação!" Desliguei e fui para o quarto. Bagunça miserável. Comecei pelas roupas espalhadas pelo chão.  E em meio aquela bagunça decidi que bagunça não seria mais uma constante na vida. Com meus originais em mãos, liguei para algumas editoras que uma amiga havia me indicado há dois anos. Vou publicar meus livros. Agora o ano começou. E eu sou outra pessoa.



Rafaela Valverde






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