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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Livro Machado - Silviano Santiago - Parte I

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Texto escrito para avaliação da disciplina O Cânone Literário Brasileiro do curso de Letras Vernáculas da UFBA, onde estudo.


Machado é um romance que não é romance. Uma biografia que vai além dos fatos da vida de alguém. Ensaio que já é o espetáculo. Espetáculo protagonizado pelo mímico do Cosme Velho, Machado de Assis. Retratada já em sua fase final, a vida de Machado de Assis foi bastante complexa.

Descendente de escravos, Machado sempre viveu de forma humilde. Conviveu com a escravidão durante grande parte da sua vida, até a abolição. Esta temática esteve bastante presente em sua obra. O livro retrata, porém os últimos quatro anos da sua vida. A partir de cartas escritas entre 1905 e 1908, Silviano Santiago construiu a grande obra biográfico-ensaística-romanceada-pitoresca e rica.

Além de uma grande homenagem, Machado pode ser considerado um bom almanaque de literatura. E não só brasileira. E não só de literatura. Almanaque de história, crítica literária e dos últimos momentos da vida do Bruxo do Cosme Velho.

Como o próprio Silviano Santiago declarou em uma de suas entrevistas: não era possível escrever um livro simples sobre a vida de alguém tão complexo como Machado de Assis. Por isso, o livro tão multifacetado. Não dava para ser uma simples biografia narrando fatos da sua vida e descrevendo dados e anos. Um romance simples, porém, não bastaria. Fazia-se necessário um livro grandioso, para a posteridade.

É claro que a intenção de fazer um livro como esse não é apenas homenagear um grande escritor e o fundador da Academia Brasileira de Letras. Não. Silviano quer deixar para o futuro, algo de si mesmo. O que ele próprio sabe sobre literatura. Seu mestrado na França, ilustrado pelo grande conhecimento em Flaubert não deixa mentir. Além disso, inicia- se a consagração do escritor como cânone da sua geração. Já que Machado foi e ainda é um autor legitimado no Brasil e no mundo. Há ainda de lembrar que o processo de urbanização do Rio de Janeiro, fator que incomodava muito o Bruxo do Cosme Velho, se comparava desde sua composição ao processo de urbanização de Paris. Onde quem esteve? Silviano. Eles estão ligados. Silviano Santiago se liga a Machado. Sua ligação com o escritor está também no fato de que Silviano nasceu, anos depois, na mesma data de morte do mímico: 29 de setembro. Silviano estende seu vínculo. Ele se transporta para o início do século XX e teima em conviver bem próximo ao grande escritor brasileiro.

O livro traz diversas imagens, mas nem precisava: com a confusão organizada entre narrador, autor e personagens, a trama já se estampa. Com uma bem feita metalinguagem, o livro consegue narrar, com literatura, a própria literatura. Além disso, há a descrição detalhada da urbanização do Rio de Janeiro, com seus principais meandros e consequências sociais.

Como já sabemos o cânone ou os cânones são listas de leituras escolhidas e implementadas por alguém. E que esse alguém geralmente é formado por mais de uma pessoa ou até mesmo instituições. Principalmente as universidades e seus grandes doutores críticos. Há a certeza, é claro que essas pessoas e universidades estão imbuídas de poder. A ideia de cânone foi criada e consolidada ao longo da história ocidental. Quando a igreja mandava, o cânone existia para determinar o que os fieis podiam ler ou não. E quem mais já teve poder nesse mundo que a igreja? 

Machado de Assis está no cânone. Ouso até dizer que Machado é ele mesmo, um cânone. Além de escritor, já respeitado na sua época, funcionário Público nomeado pelo imperador, Machado foi também o fundador da Academia Brasileira de Letras, como todos nós já sabemos. Antes, os encontros literários eram realizados na livraria Garnier. Os encontros cresceram tanto que nasceu a academia. A própria ABL – um siglazinha carinhosa – já estabelece um cânone. A lista de cadeiras dos imortais que ali se encontram confirmam bem isso. A rejeição do desconhecido Mário de Alencar também.


Continua...


Rafaela Valverde

terça-feira, 25 de julho de 2017

Minha relação com a escrita

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Minha relação com a escrita é bem antiga. Comecei a ler com quatro anos e a escrita veio logo em seguida: minha mãe sugeria que escrevesse cartas para professoras e minha madrinha. Minha mãe foi uma grande incentivadora de todo o processo, porque em todos os momentos que me lembro escrevendo na infância, minha mãe estava presente ou foi por causa dela. Além das cartas, havia as cópias de textos dos livros de português, especialmente como castigos; tinha também as caligrafias, aqueles cadernos para ajeitar as letras e as deixar bonitinhas. 

Não sei que coisa mágica é essa de minha mãe, pois não teve estudo, não gostava de estudar, segundo ela mesma, e ainda assim "puxava" da gente no estudo, de mim e de minha irmã. Fora isso, tínhamos o incentivo das escolas em que estudamos na primeira infância. Escolas pequenas, privadas, mas de bairro. Mas escolas que foram muito importantes em minha formação. Tive uma base muito boa, apesar de depois, a partir dos sete anos, ter ido para a escola pública.

Como tinha essa base da escrita e entrei na segunda série mais adiantada que meus colegas e ainda continuava o incentivo-castigo de mamis, eu seguia bem na escola. Apesar de lembrar de ler pouco nessa época, mas de já ter lido muito na escola anterior, foi lá que comecei a ler quadrinhos, eu gostava de ler, mas não tinha muito acesso a livros. Não havia internet e realmente eu só lia o pouco que conseguia nos livros didáticos e na casa de duas de minhas tias, que tinham alguns livros.

Com a reforma da escola que eu estudava, na terceira série do ensino fundamental, esperei que pudéssemos passar a frequentar a biblioteca, eu e minha turma, mas isso não acontecia. Continuei com pouco acesso e sem incentivos muito satisfatórios. No entanto, uma professora pedia que nós sempre lêssemos. Lembro claramente ela falando pra gente ler placas na rua e até bulas de remédios. Segui seu conselho.

Nessa época eu ainda não escrevia. E acho que também nessa época, começou a ir ao meu bairro, um projeto da biblioteca pública da Bahia: biblioteca móvel, que nada mais era que uma biblioteca em uma van. Eu carinhosamente chamava de bibliocombi. Nossa, como é bom lembrar disso, porque eu simplesmente amava esse momento. Foi aí que começou minha relação direta com os livros. Eram tardes de quarta feira, pra mim o melhor dia da semana. Eu ia lá, lia algumas revistas: Veja, Época, Turma da Mônica e pegava livros emprestados. Eu sempre li de tudo, mas amava ler romances água com açúcar. Uns que tinha nomes de flores. Simplesmente adorava. Lia nessa época, muito Agatha Christie também. Eu sempre li de tudo, independente se era próprio pra minha idade. Se eu tinha acesso eu lia. Não tenho certeza, mas acho que comecei a ler Sidney Sheldon também essa época, que são livros bem adultos.

Enfim, essa biblioteca esteve no meu bairro durante anos, toda quarta feira. E eu batia ponto lá. Pelo menos até mudar de escola e ir estudar no Centro da cidade. Lá havia biblioteca e eu podia frequentar a biblioteca pública dos Barris. E era o que eu fazia. Teve também as bibliotecas Monteiro Lobato e do Sesc, em Nazaré. Ambas fizeram parte da minha adolescência, também. Sempre vivi nesse universo literário

Comecei a escrever literatura pra valer com onze pra doze anos. Mas antes tinha um diário, então comecei bem antes dessa idade. Pois bem, aos doze anos escrevi a história baseada em um dos romances bestas que havia lido e dei pra minha professora de português na época, de quem eu gostava muito. Peguei várias folhas, escritas à lápis, grampeei, colei um papel ofício na frente com um nome que nem lembro mais e entreguei a ela. Até hoje tenho vergonha disso. Rsrsrs Coitada da professora, gente!

Depois disso não parei mais. Eram poesias bobas de menina, paródias para trabalhos da escola, tudo eu escrevia. Em 2008, eu já na era da internet, comecei esse blog. E já se foram nove anos! Eu estava em casa vagabundando, tinha terminado o ensino médio e estava procurando emprego. Estava sem rumo, me sentia triste e insatisfeita com aquela situação. Daí, decidi escrever sobre esses sentimentos que tanto me afligiam. E não parei mais.

Hoje eu escrevo tudo: poema, crônicas, contos, trabalhos acadêmicos, textos dissertativos. Tudo... Eu amo escrever. Em 2013 obtive 940 na redação do Enem e em 2014 900 pontos. Isso me deixa muito orgulhosa e eu fico espalhando para as pessoas. Claro que eu não nasci sabendo e nem é um dom divino que veio do nada. Eu ralei muito e batalhei para escrever como escrevo hoje. E ainda assim preciso muito melhorar. Li muito a minha vida toda e leio ainda. Até hoje eu leio muito, até porque meu curso exige.

Mas dá muito trabalho. Não é nada de outro mundo, qualquer pessoa pode escrever bem, basta ler e treinar bastante, é um trabalho árduo. Algumas pessoas acham que eu já nasci com o dom de escrever e que só tive que começar a escrever e mais nada. Confesso que isso me incomoda um pouco, mas vamos que vamos...


Rafaela Valverde


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Das 8h às 17h


Nunca me imaginei vestindo um uniforme e trabalhando das oito às dezessete. Assim como nunca me imaginei, nunca trabalhei oito horas na vida. Também nunca tive um salário de mais de três dígitos, pois os salários baixos são mais compatíveis com a carga horária de seis horas por dia. Eu fico tentando entender como será essa rotina, como será a cabeça dessas pessoas que a vivem. Claro que eu tenho minha mãe em casa, mas queria visões de fora sobre perder no mínimo quatro horas por dia só no trânsito - o que é condizente com a realidade do trânsito de Salvador e o tempo gasto parado; depois ainda trabalhar oito, nove horas e ainda passar uma ou duas horas de almoço dentro da empresa, ou nas proximidades. É como se vidas inteiras girassem em torno de empresas, de empregos, de negócios, de lucros. Vejo colegas andando juntos na rua, com os uniformes do trabalho, indo ou voltando do almoço. Sim às vezes escuto as conversas alheias e sei que muito do que conversam se relaciona à empresa ou aos colegas. Penso que é por isso que as pessoas imploram tanto pela chegada da sexta feira, por que ter uma vida que gira em torno de uma atividade laboral deve ser bem extenuante. Eu analisando de fora, vejo que isso é triste, sei lá, não sei bem se é triste a palavra que queria usar. Se eu, só estudando e agora estagiando, às vezes não sobra tempo para estudar imagine então quem trabalha o dia todo e faz uma graduação à noite. Quase não tem tempo de estudar. Deve ser bem puxado e não imagino minha vida girando em torno de nada que não dará lucro a mim mesma. No final do dia as pessoas já saem tão cansadas do trabalho e ainda pegam o trânsito miserável dessa cidade. E no outro dia precisam acordar mais cedo para conseguir chegar no horário, pois também tem trânsito... Eu seria bem infeliz em uma rotina dessa. Não posso chegar aqui e mentir, dizer que é melhor viver refém de uma empresa qualquer do que ficar sem trabalhar formalmente. Sim, porque esse é o discurso da maioria das pessoas que eu conheço e talvez eu seja a maior errada nisso tudo, mas é o que eu penso. Não entendo como as pessoas podem sair desses trabalhos sorrindo, devem ser muito felizes. O resto que sobra das suas vidas deve mesmo ser muito bom para que elas sorriam tanto, porque eu sinceramente não entendo.




Rafaela Valverde

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Minha trajetória acadêmica

Em 2010 passei no vestibular da Uneb - Universidade do estado da Bahia para o curso de Pedagogia, que eu não sabia exatamente do que se tratava, mas como achava que queria fazer psicologia, achei que pedagogia tinha semelhanças com psico e lá fui eu. As aulas começaram no dia 12 de abril e ainda era tão menina, ia fazer vinte e um anos e estava noiva. Nessa época eu trabalhava e estudava e só vivia cansada, dormia na aula e não sei como eu consegui lidar com oito matérias assim. Uns dois meses depois fiquei desempregada e minha mãe que me ajudava com a faculdade. Casei no mesmo ano e continuei nos semestres seguintes com as oito disciplinas.

Depois de um tempo comecei a pegar menos matérias e fui ficando atrasada, separada das minhas colegas e amigas que tinha feito naqueles meses. Acredito que  isso tenha me desmotivado bastante, além  de uma monitoria que fiz e não recebi o dinheiro ao qual tinha direito e precisava. Por essas e questões de não gostar e não me adaptar com algumas disciplinas e questões do curso acabei abandonando. Eu não via mais graça em estar ali, fazendo aquele curso. Me sentia sem perspectivas.

Foi nessa época que passei a dar mais atenção ao blog e quis seguir o sonho de escrever, de ganhar dinheiro escrevendo e botei na cabeça que queria ser jornalista. Por que queria escrever de qualquer jeito. Até pensei em fazer letras, mas tinha horror à licenciatura e à sala de aula. Tentei entrar na UFBA em jornalismo e não consegui. No ano de 2013 depois de uns meses fora do Departamento de Educação da Uneb, decidi voltar. Mas durou pouco tempo. Minha falta de afinidade com o curso era latente, eu não me dava bem com a maioria dos professores de lá que eram muito arrogantes. Não tinha motivação para ir até lé, nem para fazer as atividades, nem de olhar para as caras dos professores. Saí de novo e dessa vez pra valer.

Em 2014 depois de mais um Enem tentei novamente o curso de jornalismo na UFBA e não consegui. Porém fiz um vestibular na Unijorge e passei, consegui um FIES e fui fazer jornalismo nesse centro universitário privado. Não me adaptei muito bem lá. A universidade parece um shopping, com praças de alimentação bem grandes e quase nenhum apoio a alunos de baixa renda. Me sentia deslocada, um peixe fora d'água. Fora que a sala que eu estudava era super barulhenta e imatura, me sentia estudando em uma escola de ensino médio. Fora que com boletos todo mês e o salário que eu ganhava não estava dando, daí decidi usar a mesma nota do Enem e ganhar uma bolsa em uma universidade diferente e melhor. Consegui a bolsa e ia começar o semestre no mês de agosto de 2014. Enquanto isso, minhas colegas estavam se formando. 

Faltando poucos dias para começar o semestre na FSBA - Faculdade Social da Bahia eu recebi uma ligação  avisando que não havia formado turma para jornalismo e que o curso estava praticamente extinto na universidade. Eu teria que escolher outro curso ou desistir da bolsa. Dentre os cursos que me ofereceram fiz a merda de escolher um. Eu não acreditava mais que pudesse entrar na UFBA  e seguir a carreira acadêmica que eu tanto sonhava. Então eu escolhi psicologia. Entrei sem semestre definido e pegava disciplinas introdutórias misturadas com as mais avançadas e não entendia os conceitos básicos tendo certa dificuldade em acompanhar. Sentia o tempo todo que me formaria sem nenhuma perspetiva, não me sentia feliz ali, nem no curso e nem na faculdade. Fora que é perto do campus da UFBA em que estudo hoje e pegava os mesmos ônibus que vários alunos da Federal que ali desciam e ficava pensando que meu lugar era ali, que um dia eu gostaria de descer antes, naqueles ponto.

O que começou a me tirar daquele curso e daquela faculdade foi a dificuldade em estudar. Os textos eram longos e meu tablet havia quebrado, me impossibilitando de ler a maioria dos textos. Eu teria que tirar xerox ou imprimir todos e não tinha grana para isso, apesar de estar trabalhando na época. Comecei a tirar notas ruins e a faltar nas aulas de sábado, já que trabalhava aos finais de semana. Eu sabia que tinha que sair dali e exatamente no meio do ano de 2015, no SISU do meio do ano eu decidi que eu iria para a UFBA em qualquer curso. E eu entrei em Letras. De primeira. Sabe se que as notas de corte desses cursos são bem baixas e não foi tão difícil. Fiquei muito feliz. Acho que foi um dos poucos dias mais felizes que tive naquele ano. Dia 15 de junho de 2015. A universidade estava em greve, fiz matrícula, mas só comecei a ter aulas em janeiro de 20016, ano passado e hoje estou no quarto semestre e realmente estou onde eu merecia, precisava e queria estar. Eu dou aulas particulares de Português e agora vou assumir salas de aula em uma escola estadual. Eu estou muito feliz e realizada na minha vida acadêmica. Eu amo ensinar. Eu já faço pesquisa e sou bolsista de Iniciação Científica. Eu vejo  a realização do meu sonho chegando, chegando aos poucos. Eu tenho contato mais direto com literatura, algumas disciplinas de literatura do curso são fascinantes e eu adoro entrar naquele portão todos os dias. Por mais que a coisa não seja fácil. É muito estudo. É tudo bem diferente de todas as universidades em que já estive. Mas eu adoro, finalmente me encontrei.

Não desista do seu sonho, não hesite em sair de algo que não te faz bem, onde você não quer estar. Saia e vá atrás do que realmente você quer. Porque uma hora dá certo. Essa é a loucura da minha vida acadêmica até agora, minhas desistências e conquistas. 



Rafaela Valverde

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Recife - Erel 2017


Estive esse mês pela primeira vez em Recife Pernambuco. Fui ao Erel - Encontro Regional dos Estudantes de Letras. Fui apresentar pela primeira vez meu trabalho de pesquisa. Tivemos alguns perrengues, eu e meus amigos, em relação ao acampamento e à organização do evento realizado pela UFPE, mas fora isso amamos Recife.

Eu pelo menos gostei bastante. Visitamos Olinda e Porto de Galinhas que são municípios próximos da capital. Essa foto acima é de Recife antiga, Marco Zero. Primeiro lugar que fui. Além de atividades acadêmicas na universidade, turistamos bastante na cidade e região. Tenho que dizer que sempre rola alguma comparação e eu senti inveja de Recife por dois motivos principais, claro que foram só cinco dias que estive lá, então minha análise é superficial. Então, os pontos que tive inveja da cidade foi que Recife conserva seus prédios históricos e consequentemente sua história. Pode ter problemas do tipo mas meus olhos encantados de turista viu poucos prédios mal conservados e nenhum em ruínas e perto de cair.

Como eu disse, pode ser que meus olhos tenham se enganado, mas foi essa a impressão que tive. A segunda inveja de Recife é relacionada à limpeza urbana. Sinceramente, alguém dizer que Salvador é uma cidade limpa deve ser cego. Soteropolitanos são muito mal educados e em a cada canteiro, bueiro e canto da nossa cidade é possível encontrar alguma embalagem de picolé ou garrafa de água. É só sair olhando atentamente os cantos da cidade, que vê fácil, fácil a sujeira de Salvador.

Eu observei os cantos de Recife também. Pouco, pelos poucos dias que passei lá, não é suficiente, mas ainda assim, notei que os cantos entre a rua e meio fio não têm garrafas de água, nem palitos de picolé como aqui na minha amada cidade. Perto da UFPE tem várias barracas de lanches e ponto de ônibus, por ali dá até para ver talvez um papel de bala ou outro que o vento leva, mas é diferente da sujeira que parece que brota do solo de Salvador. Enfim, eu acho que é mais uma questão de educação mesmo, já que o cidadão soteropolitano atira quantidades enormes de lixo pelas janelas dos ônibus e carros. É isso, é só minha impressão sobre alguns fatos que observei na cidade. E fora que Recife já tem BRT que é um tipo de ônibus mais rápido, com pontos específicos e que dizem que há anos que terá em Salvador também. Enfim, amei Recife, Ipojuca que é onde Porto de Galinhas e Olinda.




Rafaela Valverde

sábado, 25 de março de 2017

Alguém sabe o que é Brasil?


Esse texto é um pequeno ensaio produzido por mim para avaliação da disciplina Literatura Brasileira e a Construção da Nacionalidade do curso de Letras da UFBA.

Para o novo país, havia a necessidade de definição. Nações europeias já estavam aí há muito mais tempo. O Brasil era novo nessa coisa de ser pátria. As pessoas que habitavam o território brasileiro eram diversas já no período radical.
Um país com jeito de continente: como formar uma unidade? Com engendrar traços em comum que tornassem o povo, ou os povos que aqui viviam minimamente homogêneos? Era realmente possível? O fato é que hoje ainda não somos homogêneos, apesar das inúmeras tentativas. Graças a Deus, graças a todos os deuses, já que somos  um estado laico.
O querer ser nação foi inventado pela Europa, é claro. Ainda no século III no período do Império Romano, onde já existia esse tipo de política para impressionar e para dominar. Em Roma havia exército, guerras, corrupção, brigas políticas e dominação de povos. Segundo Ernest Renan, no texto O que é uma nação? foi a invasão germânica ao território românico que introduz no mundo o princípio da nacionalidade. É claro que esse conceito só seria desenvolvido mais tarde; a invasão foi uma base para o que conhecemos hoje. Portugal trouxe-nos de forma bastante contundente, ideias de nacionalidade como bom representante do continente europeu.
Renan escreve ainda que “[...] a essência de uma nação é que todos os indivíduos tenham muitas coisas em comum, e também que todos tenham esquecido coisas”. Dessa forma, para que uma nação seja nação, a maioria das pessoas deve compartilhar nuances de uma mesma cultura e ao mesmo tempo ocultar o que não interessa dessa mesma cultura. Em geral que é esquecido é algo ruim, ou considerado ruim ou ainda algumas culturas produzidas pelas minorias.  Existe uma crença que para o Brasil ser Brasil, se faz necessário que todos falem o mesmo português, gostem de futebol e carnaval, por exemplo. Ao mesmo tempo ser Brasil é estereotipar povos indígenas e pessoas pretas; é esquecer e ocultar escravidão e massacres desses povos; ser Brasil é acreditar piamente no mito da democracia racial, ser Brasil é  ”esquecer” de muitas outras perebas históricas e sociais de um jeitinho escroto regulamentado por nós mesmos.
Não dá para ser homogêneo. Não é possível que exista homogeneidade quando se trata de seres humanos com culturas, subjetividades e individualidades. Somos iguais perante a constituição brasileira e somos tão diferentes. Somos essencialmente distintos, isso não dá para mudar. Essas diferenças vêm de todos os fatores que já sabemos: miscigenação, intercâmbios culturais, etc. Se não há homogeneidade, tampouco é possível definir o “ser brasileiro” apenas por esse jeito de se pensar que é ser brasileiro. Não dá para definir através de futebol, carnaval, língua e novela. Aliás toda essa trama bem conduzida e interligada de que todo brasileiro gosta dessas coisas foi criada politicamente. Isso é óbvio. Como eu disse no início, era necessário vender o novo país ao mundo. E quanto a isso, meu texto é até repetitivo.
Vejamos: somos tão criativos em alguns casos que até o jeitinho brasileiro varia de região para região; duvido que o cara que burla qualquer coisa lá no Sul, burle da mesma forma que burlamos aqui no Nordeste. Nem todos gostamos de futebol, ou entendemos suas regras, como é o meu caso. O carnaval também não é unânime por aqui. Há também heterogeneidades na língua. Com dialetos e sotaques, ela não é igual em nenhum estado brasileiro.
Assim, não dá para definir nacionalidade através desses aspectos. Mas o que é ser brasileiro, afinal? “Uma nação é uma alma, um princípio espiritual.” (RENAM, P. 18) Para ele é invisível, para mim uma mentira. A nação brasileira inventada para satisfazer o resto do mundo é uma falácia.

 O próprio Renam afirmou em seu texto, que é preciso uma boa dose de  esquecimento para formação de nações.  Dessa forma exterminamos a maioria dos nossos índios, matamos pessoas pretas todos os dias. Essas ações, conscientes ou não, ajudam a ocultar o que não queremos em nossa pátria. O lado da história que queremos é o lado narrado pelo homem branco.
Nossa história começou a ser contada, como até hoje é, por homens brancos, europeus, heterossexuais. Histórias ou estórias que narram a grandeza do homem europeu que fez o favor de achar o Brasil e nos salvar dos povos indígenas selvagens que aqui viviam. Obrigada, gente!
A carta de Pero Vaz de Caminha é um dos exemplos da contação dessa estória, sim, para histórias fantasiosas é estória! A lenda do surgimento do Brasil e da nacionalidade brasileira estava esquecida e foi resgatada para ser um símbolo de brasilidade e orgulho da terra maravilhosa em que nascemos, olha que sorte!
O texto Quem foi Pero Vaz de Caminha? De Hans Ulrich Gumbrecht traz informações e reflexões importantes para refutar a carta. Caminha não só esteve aqui por apenas dez dias como também  não se sabe quase nada sobre o homem que primeiro descreveu o Brasil. Há várias outras questões no texto, listo aqui algumas delas: Pero Vaz de Caminha só esteve presente na expedição do “descobrimento” por causa de suas habilidades  para escrever. Portanto, ele já veio com essa função pré- determinada. Ou seja, a carta não foi fruto do fascínio de Caminha pelo país. Não era literatura, era um documento oficial para ser entregue ao rei de Portugal. Um relatório sobre o recém-achado país que serviria para enriquecer ainda mais a corte portuguesa. A carta descreve vários momentos  desses dez dias de convivência com  os índios: as comidas, os rituais. As danças, as relações sociais e os costumes. Tudo meio piegas  e estereotipado. O Brasil é um país rico e perfeito e é aqui que vamos nos estabelecer trazer nossos presos e extrair toda riqueza que for possível.
O texto, tratado até como literário, pode ser considerado o marco inicial dos textos nacionalistas, que montam o Brasil e o brasileiro baseado em conceitos que pretendem vender o país como paraíso tropical, com  um jeitinho malandro e lindas mulheres.
O termo nacionalismo traz uma ideia patriótica intrínseca, mas não é tão fácil definir. Não há um significado só. Nação e nacionalismo são o que querem que a gente pense que é. Para Benedict Anderson: “Nação, nacionalidade, nacionalismo, todos provaram ser de dificílima definição que dirá de análise.” (p.28)
Se Anderson está afirmando isso, quem sou eu para tentar aqui definir qualquer um desses termos. Mais a frente, o autor discute nação como algo inventado, como “uma comunidade política imaginada, [...] limitada e ao mesmo tempo soberana.” (p.22)
Dessa forma, há de se concluir que o Brasil enquanto essa nação alegre, festiva e receptiva, não existe. Não existe porque não existe um só Brasil, mas Brasis. Diversos, multiculturais, que vai além do Brasil que querem mostrar ao mundo. Parece que sempre existiu essa mania de querer difundir um Brasil especial, desde Caminha até hoje.
Especialmente a partir de 1930, quando houve uma mudança política no país, essa imagem articulada de um Brasil malandro e festeiro foi distribuída pelo mundo. Filmes, propagandas políticas, jornais, livros e gêneros literários espalhavam nosso jeito maroto de viver. Todos esses meios convergiam para confirmar a versão de Brasil  que pretendiam espalhar. Nós tínhamos e ainda temos um Brasil encomendado. Drummond, ciente disso, perguntou em seu poema Hino Nacional, se o Brasil existe mesmo e se existem mesmo os brasileiros? Esse Brasil e esses brasileiros encomendados e inventados? É a mesma pergunta que eu me faço.  
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Rafaela Valverde


sexta-feira, 24 de março de 2017

Série Merli


Dois professores me indicaram a série Merlí e eu decidi assistir. Está no Netflix e eu não poderia deixar de dar uma espiada. Especialmente por se tratar de uma série catalã, cuja cultura e língua eu ainda não tinha tido contato e por se tratar de educação e filosofia. Merlí estreou na Catalunha em 2015 e a Netflix comprou os direitos de exibição no Brasil e nos EUA.

Só tem a primeira temporada, mas já quero a segunda! Merlí, professor que dá nome a série é um professor de filosofia nada tradicional. Ele chega à escola causando polêmicas com os outros professores e com os alunos que estranham sua forma de ensinar e agir. Desperta o ódio de alguns e o amor de outros. Um outro detalhe da série é que cada episódio é nomeado com um filósofo ou uma vertente filosófica como os peripatéticos. E nesses episódios com nomes de filósofos, as aulas e as histórias têm influências de certas ideias deles. 

Merlí é pai de Bruno, que também é seu aluno. Bruno é gay mas ainda está no armário. E as histórias vão se desenvolvendo a partir dos dramas dos alunos, da personalidade do professor-protagonista Merlí, que não é nada fácil e a partir de ideias filosóficas também. Vários assuntos são abordados, como conflitos entre pais e filhos, divulgação de vídeos íntimos na internet, bullying, homossexualidade, etc.

É uma série muito bacana. Bem produzida, com boas atuações e aquela gostosíssima língua catalã que inclusive estou estudando na faculdade, já que é uma língua românica, advinda do latim hahaha. É isso, gente, eu gostei bastante e recomendo. Para professores e pessoas normais (rsrsrs). Já que é uma série bastante divertida e dá para aprender alguma coisa sobre filosofia. Recomendo!



Rafaela Valverde

Então eu choro


A ansiedade me toma por completo. Tenho oitocentas atividades da faculdade para fazer, aulas para preparar e ainda assim passo o final de semana deitada vendo série. Procrastinando. Evitando as atividades que estão se tornando cada vez mais chatas, a medida em que o tempo passa.  Fico sofrendo porque tenho que fazer tantas coisas e ao mesmo tempo fico evitando fazê-las porque as acho chatas.

Nem me olho mais no espelho porque tenho medo de encarar minha olheiras. E quando finalmente tenho coragem de olhar, não olho meus olhos vermelhos. Vermelhos de tanto chorar. Às vezes ficam inchados também. Saio e lavo o rosto, mas não adianta nada e temo que as pessoas percebam. Minha mãe ainda ontem perguntou o porquê desses olhos inchados, se eu estava chorando.

Sabe, é preciso chorar. ás vezes as lágrimas vêm  de forma automática. Densas, chegam a pesar no rosto. Não posso evitá-las. Só enxugo, mas elas caem minutos depois. Sempre voltam a cair, me deixando preocupada  e ainda com mais vontade de chorar. Daí no outro dia acordo me sentindo seca, como se tudo tivesse sido vertido junto com as lágrimas. Tudo que havia de alegre em mim escorreu pelo meu rosto até o chão e morreu.

Mas no dia seguinte preciso reagir e acordar como se nada tivesse acontecido. Preciso viver a vida que Deus me deu. Mas por quê? Por que mesmo que Deus me concedeu a vida? Ela é tão sem sentido, aleatória e injusta e a gente ainda tem que sentir grata. É piada? Parece que sim. Fico pensando em quantas formas existem de se matar. Fico pensando em morrer todos os dias que abro os olhos e percebo que estou viva, ainda. A ansiedade me corrói, me come por dentro, então me sinto oca, vazia. Continuo procrastinando o que acho chato e adiantando o que me oferece um momentâneo e ilusório prazer.


Rafaela Valverde


sexta-feira, 10 de março de 2017

Resenha acadêmica de Nove Noites - Bernardo de Carvalho - Parte II


Ora, era justamente a ideia que Bernardo de Carvalho rechaça. Os índios devem ser tratados como gente, como os seres humanos que são. Com seus defeitos e suas virtudes. A ideia que ainda se tem sobre o índio é que além de ele ser passivo, é  oco e superficial.   Índio   não pensa,  índio   só   quer   umas   lembrancinhas  e alguém   que   os defenda. Essa é a ideia paternalista que o livro pretende desbancar. E consegue. O livro passeia por histórias e emoções, o livro vai e vem. E assim será esse texto, ele vagueará pelas histórias  contadas  em   Nove  Noites   e  pelo   mistério que   ronda  o  suicídio   do etnólogo americano.

Dessa forma, há de se falar da morte, da vida, das cartas e de tudo mais que possa ser interessante sobre a vida de Buell Quain. Essa busca pela vida do antropólogo está   diretamente   ligada   à   vida  do   narrador.  A  análise   desse   texto   buscará   ser   tão obsessiva quanto a busca dele. Portanto trechos e parágrafos se vão se misturar e se intercalar para contar essa (s) história (s).

O narrador, depois de adulto, retornou à comunidade dos  Krahô, acompanhado de   um   antropólogo  conhecido.   Ele   conheceu   o   velho   Diniz,   único   membro   da comunidade vivo que conheceu Quain quando ainda era menino. Havia a esperança de que ele falasse sobre local em que o americano havia sido enterrado e outras questões. O velho Diniz mal havia sido apresentado ao jornalista e foi logo pedindo seu gravador. Negando educadamente, ele informa que precisa dele para trabalhar, o índio rebate: “Lá em   São   Paulo   você   compra   um   igualzinho   e   manda   pelo   correio.”   É   um   trecho marcante, pois evidencia o quão os índios são humanos, o quão os índios que moram no Brasil são realmente brasileiros. Enfim comprovam que índio é gente e gosta de todas ascoisas que todas as outras pessoas gostam. O velho Diniz conta que os índios chamavam Buell   de   “Cãmtwýon”,   sendo   logo   questionado   sobre   o   significado.   Mas   não   há significado específico, ao contrário do que se pensa que sejam os nomes indígenas. Mais um estereótipo quebrado. 

Diniz   ainda  conta   que   o   antropólogo   americano  raspou  a   cabeça,   enquanto tomava banho no rio, no dia seguinte à sua chegada: ajudou em um parto, deu nome ao recém-nascido, mas não queria participar de nada. Não se envolvia em nada e passava dias escrevendo, não bebia muito e costumava ouvir música às vezes. Era um homem bastante   reservado.   Diniz   achava   que   ele   havia   enlouquecido   depois   que   recebera algumas cartas. Nessas cartas, que foram queimadas por ele antes de morrer, haveria anotícia de que a mulher o havia traído com o irmão.

Mas   essa   história   não   é   verdadeira.   Há   muitas   contradições   e   versões desencontradas sobre as possíveis causas do seu suicídio. A mãe e a irmã dele afirmam que ele nunca havia sido casado e não tinha irmão. Só irmã, mãe e um pai que eranmédico, mas não muito próximo dele. Há ainda várias hipóteses sobre o momento da sua morte: “foi se cortando todo, ainda de dia, descendo sangue”, depois “queimou dinheiro.” Havia ainda informações sobre ele ter queimado as cartas que recebera, pois elas nunca foram encontradas. Ele teria se cortado no pescoço e nos braços e depois se
enforcado. Enfim, como se vê, não há uma informação só sobre o inesperado caso.

Há relatos que o etnólogo sofria e que estava se cortando (foi questionado nomomento) e ele afirmara que “precisava amenizar o sofrimento, extinguir a sua dorcruciante.” Em geral, as pessoas atribuem o suicídio a sofrimento à depressão e é fácil perceber que o homem tinha picos  de tristeza  e crises existenciais. Ele em  alguns momentos interagia e estava bem. No momento seguinte, porém mudava o seu humor e se trancava.

“Ele se enforcou com a corda da rede num pau grosso, inclinado, quando os índios fugiram,” afirmou o velho Diniz. Pediu que fosse enterrado ali mesmo e seu pedido foi atendido. A sepultura foi marcada com talos de buriti e nenhuma polícia ou outra autoridade foi ao local. Não houve exumação nem abertura de inquérito e nem há registro em nenhum cartório ou fórum.

 A morte de Buell Quain foi esquecida, teve certa repercussão na época, mais entre o meio antropológico, além de ter sido um americano morto em terras Brasileiras. Nem a mãe e a irmã vieram ao Brasil ou solicitaram o envio do corpo. Não. Ele ficou esquecido lá nos confins do norte do Brasil. A colcha de retalhos de informações e especulações sobre esse suicídio nunca foi concluída. As costuras não combinam entres i e sempre há alguma discrepância entre elas. Nunca se chegará a nenhuma conclusão sobre o que teria levado o jovem americano a se matar.

Foi   observado   que   há   algumas   insinuações   sobre   uma   possível homossexualidade   do   etnólogo.   Em   alguns   trechos   das   narrativas   apontam   como estranha a ausência de mulheres na vida dele. Ele não tinha amantes, não olhava para as índias, não era dado a aventuras sexuais, era bastante recluso. Outro ponto que pode ser interpretado como insinuação sobre a sexualidade de Buell seria uma das últimas cartas que ele escreveu ao cunhado, e somente a ele, antes de morrer. Para muitas pessoas poderia passar despercebido, mas não é esse o caso. Há também o fato de ele não se dar bem com o pai, seria um indício?

Em determinados momentos do texto é narrada  a viagem do jornalista, sessenta e  dois anos  depois. Ele mantém  um relacionamento mais  próximo com  os   índios, participa de rituais e reconstrói algumas imagens sobre os indígenas. Pôde ainda sentir um pouco a  sensação de estar próximo aos índios  e pesquisou bastante a vida do antropólogo. Cartas e fotos por exemplo. Em uma carta escrita em 4 de julho, menos de um mês antes de morrer ele escrevia: “Duvido de que em algum outro lugar no mundo existam culturas indígenas tão puras. Mas, a despeito de todas as virtudes do Xingu, gostaria   de deixar   o   Brasil   definitivamente   e   limitar   meu   trabalho   a   regiões.” Ele reclamava das dificuldades de trabalhar com índios brasileiros. “Acredito que isso possa ser atribuído à natureza indisciplinada e invertebrada da própria cultura brasileira.” Ou seja, os indígenas brasileiros, já naquela época não eram passivos como se imagina. E quase nada se alterou na cultura do povo brasileiro.



Continua...


Rafaela Valverde

Resenha acadêmica de Nove Noites - Bernardo de Carvalho


Livro que foi publicado em 2002 e  recebeu   o   prêmio  Portugal  Telecom de Literatura Brasileira, Nove Noites é o sexto livro de Bernardo de Carvalho. Ele mescla fatos da vida do antropólogo norte-americano Buell Quain com a vida do narrador. No dia 02 de agosto de 1939, cinco meses após chegar ao Brasil em sua segunda visita, Quain  se   suicidou   aos   27   anos.  Ele   vivia   com   a   comunidade  indígena   Krahô,   noTocantins, quando decidiu tirar a própria vida.

O narrador, sessenta e dois anos depois, resolve investigar obsessivamente o caso, após ler um artigo no jornal que fazia rápida menção ao suicídio de Quain. Ele segue pistas, contata pessoas que poderiam estar ligadas ao antropólogo e vai até a região conhecer os Krahô, a fim de tentar saber informações sobre esse misterioso suicídio. Ele usa o pretexto de que vai escrever um romance. E a partir dessa obsessão as histórias começam a ser contadas, de forma intercalada.

 O   livro,   na   verdade   pode   ser   encarado   como   uma   colcha   de   retalhos   de especulações sobre o que teria motivado o suicídio do jovem antropólogo. Mas uma colcha de retalhos genial. Bernardo de Carvalho – que já afirmou que o livro é “uma combinação de memória e imaginação” – soube desenvolver muito bem a narrativa a partir de fatos reais. Em uma entrevista para a Revista Trópico, Bernardo afirma que queria escrever um romance que não fosse paternalista e que mostrasse os índios como eles realmente são. Afirma ainda que queria fugir de diversas outras abordagens que são paternalistas. 

Quain era uma pessoa solitária, não se envolvia muito com os índios, até porque assim foi orientado antes  de   aqui chegar.  Porém,   se isolar   era uma   escolha muito particular dele. Não se sabia muito sobre o antropólogo que viveu meses entre os Krahô. Tanto que após a sua trágica morte especulava-se na possibilidade de uma doença, como por exemplo, a lepra. Havia também falatórios sobre sífilis. De tudo se falou. Afinal, era preciso justificar de alguma forma aquela odiosa tragédia.

O Brasil vivia no período do Estado Novo e assim alguns estrangeiros que por aqui viviam poderiam vir a ser vigiados – pelo menos é o que é contado no livro – em caso de serem comunistas ou algo parecido. Dessa forma, a reserva de Quain sobre a sua vida se tornava ainda maior. Essa reserva aumentou ainda mais em torno do seu suicídio.

Manoel Perna, engenheiro que conheceu e conversou com o etnólogo conta diversas informações sobre a personalidade e costumes de Quain. Inclusive é da estada do americano em sua casa que surge o nome do livro, já que foram nove noites de histórias contadas. Essas nove noites foram dias de abrigo para Quain que viajava. O que Manoel conta é o resumo das histórias de Buell nessas nove noites que foram alternadas: a primeira em um momento, a segunda em outro e mais sete em outra
viagem do etnólogo. Eles conversavam sobre muitos assuntos e o engenheiro afirma que chegou a conhecer um pouco a personalidade do misterioso homem.

O narrador, que é obcecado por essa história entrevistou Lévi-Strauss em Paris. Ele se pronunciou sobre sua visita ao Brasil e sobre a emoção que sentiu quando soube das pequenas culturas indígenas que estavam sendo ameaçadas de extinção, ou sendo exterminadas aos poucos. Strauss afirmou ainda que “toda cultura tenta defender sua identidade”. É possível perceber no livro, alguns relatos e narrativas se comunidades indígenas que lutavam entre si, a fim de se preservar cultural ou territorialmente. 

Ou seja,  não   necessariamente   era   o   homem   branco   que   ameaçava   a   existência   dessas comunidades. Eles mesmos lutavam e guerreavam. Esse fato já desconstrói algumas ideias paternalistas de que o índio é “coitadinho” e que o homem branco era o único algoz. Porém, apesar de alguns conflitos, a maioria das tribos mantinha uma relação amistosa. Antes de visitar os Krahô, Quain havia visitado a comunidade dos Trumai e achado os “chatos e sujos”, eles pediam várias coisas materiais para ele, que sempre recusava. 

Parece que ele já estava pensando em morte, pois segundo Manoel Perna afirmou, por exemplo, que o americano falara que os Trumai viam na morte uma saída para seus problemas  – “uma libertação dos seus temores e sofrimentos.” Há ainda relatos de Perna sobre possíveis prenúncios de morte que ele poderia ter recebido. Em um ritual dos Trumai, através do qual buscava- se a cura de uma mulher. Era uma cerimônia, muito fechada e foi informado a Quain que se entrasse ele morreria. Ele ignorou e  entrou   mesmo assim.   Em  outra  ocasião,   enquanto caçavam aves  para  a retirada das penas, disseram-lhe que “um pássaro de cabeça vermelha a que chamavam de ‘lê’ era o anúncio da morte para quem o visse. Pouco depois ele deparou com a aparição fatídica e preferiu acreditar que lhe pregavam uma peça.”  

Manoel   Perna   afirma   que   ao   lembrar-se   das   histórias   do   antropólogo,   só chegava à mente dele a imagem do corpo do antropólogo enforcado, cortado com gilete no pescoço e nos braços, com sangue pelo corpo, pendurado acima de uma poça de sangue. Foi essa a cena que os índios descreveram para ele, quando foram dar a notícia. Nove Noites traz diversas questões, as quais são impossíveis de serem todas analisadas nesse texto. Porém, há a pretensão de abarcar o máximo possível de questões trazidas pelo livro. Questões sobre o antropólogo americano, questões sociais e políticas da época, questões indígenas, entre outras.

O narrador, que é jornalista, conta as histórias das suas andanças pelas florestas.Sua primeira viagem foi em 1967, quando tinha seis anos. Ele foi acompanhado pelo pai, que procurava fazendas para comprar. Comprara duas: uma na região do Araguaia e outra na região do Xingu. Nessas fazendas ele viveu algumas aventuras na infância, inclusive um acidente de avião com o pai. Ele nem imaginava que retornaria um dia àquelas matas para investigar obsessivamente circunstâncias de um suicídio. Em sua narrativa ele afirma, entre outras coisas, que ficou guardada em sua memória a imagem do Xingu como um inferno e que ele não “entendia o que dera na cabeça dos índios para se instalarem lá.” Para ele parecia burrice, um masoquismo ou até mesmo uma espécie de suicídio. O antropólogo que o levou à região, em 2001 também se questionava o porquê de os índios estarem instalados ali.

 Entre algumas coincidências entre o narrador e Quain, há o fato de ele ter estado, 62 anos depois, no mesmo local e data em que se suicidara o etnólogo: dia 02 de agosto.   O americano escrevia muitas cartas a seus amigos e parentes. Algumas, não chegavam a ser enviadas, como essa que seria para Margaret Mead, escrita no dia 04 de julho   de   1939   com   o   seguinte   trecho:   “O   tratamento   oficial   reduziu   os   índios   à pauperização. Há uma crença muito difundida (entre os poucos que se interessam pelo índios) de que a maneira de ajuda-los é cobri- los de presentes e ‘elevá-los a nossa civilização’ [...]”


Continua...



Rafaela Valverde




Bem sucedida e solitária


Parece que serei a mulher bem sucedida na carreira, escritora, acadêmica, com teses e muitas leituras. E por aí mesmo vou ficar. Não que isso não me satisfaça, é maravilhoso! Mas o que vai ficando claro a medida em que os anos vão passando é que não serei a mulher amada e que ama; não serei a mulher com um casamento bem sucedido e com amor.

Esses sonhos românticos não são para mim, deixo para os afortunados na vida, cujo sorriso demonstra a felicidade de estar ao lado de alguém. Parece que não nasci afeita aos lados românticos da vida. Ou eu tento me afastar deles ou eles se afastam de mim. Já vi que amor não é para mim. Até sinto, mas não vivo. E não tenho nenhuma esperança de viver novamente.

Eu tenho andado muito desiludida com todas essas questões românticas. Eu não quero mais saber de romantismo. Eu serei a representante oficial da mulher moderna, livre e bem sucedida. Mas sozinha, Sabe, não exatamente aquele sozinha de não ter ninguém por perto. É  a solidão que vem no final do dia - que é a hora de compartilhar coisas; é a solidão de não ter ninguém para abraçar a gente, para acariciar a gente, é a sensação de estar sempre calada ou de conversar com espelhos.

Outra sensação que tem se apoderado de mim nos últimos dias é a se eu realmente sirvo para ser amada, ou se sou mulher para encontros casuais e relações rápidas. Talvez sim, é provável que sim. Já tive meu pequeno conto de fadas, já tive meu momento. Agora ele já passou e é à minha carreira que irei me dedicar agora. Pelo menos ela não me faz sofrer.



Rafaela Valverde

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Pequeno texto de frustração e convocação idiota


Nesse momento me vejo aqui frustrada apagando mais um e-mail de convocação do CIEE para quem tem inglês avançado e fluente. O dinheiro é bacana e eu não tenho inglês avançado. Mas qual é a porra do problema desse sistema? Manda vaga idiota para mim todo dia. Vagas para atuar pela manhã e/ou para dar aula de inglês. Eu faço Letras Vernáculas, será que sabem o que é isso? E estou pegando disciplinas pela manhã.

Próximo semestre não pegarei disciplina pela manhã, dizem que os estágios melhores são justamente esse horário. Eu mesma perdi uma vaga por isso. Eu não consigo entender por que coisas imbecis como essas acontecem comigo. E estou aqui mais uma vez apagando tristemente a porra do e-mail e me perguntando quando que minha situação financeira vai definitivamente melhorar.

Eu acordo cinco horas da manhã. Muita gente faz isso e ninguém nunca morreu, mas meu corpo parece ter algum tipo de problema com 05:00. Hoje, por exemplo acordei às cinco e meia e não fiquei tão cansada como fico quando acordo meia hora antes. Tipo, eu fico dormindo pelos cantos, durmo no ônibus, tenho dores de cabeça e sonolência. O problema é acordar cinco da manhã!

Minha aula é as 7h, tipo 7h15 no máximo já tem professor dando aula. portanto preciso chegar cedo. Essa cagada de pegar aula esse horário eu não faço mais. Ainda tenho que ficar nessa frustração de apagar e-mail com vaga de estágio que não serve para mim e não tem nada a ver comigo. É foda, tá foda. E por quanto tempo vai ficar foda. Eu odeio esses sistemas que mandam vagas erradas! Bom, era só isso, meu pequeno texto de frustração de hoje.





Rafaela Valverde

Amar - Florbela Espanca

Estou estudando, nesse momento, na faculdade de Letras a disciplina Literatura Portuguesa. Na prova que fiz na disciplina, semana passada, havia um poema da portuguesa Florbela Espanca.  Daí fui pesquisar essa autora. Eu já tinha ouvido falar dela há alguns anos, mas nunca tive um real contato com nenhuma de suas obras. Trago um poema dela, para que essa poeta se torne mais conhecida. Esse, porém, não é o poema que estava em minha prova.






Eu quero amar, amar perdidamente! 
Amar só por amar: Aqui... além... 
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente... 
Amar! Amar! E não amar ninguém! 

Recordar? Esquecer? Indiferente!... 
Prender ou desprender? É mal? É bem? 
Quem disser que se pode amar alguém 
Durante a vida inteira é porque mente! 

Há uma Primavera em cada vida: 
É preciso cantá-la assim florida, 
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! 

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada 
Que seja a minha noite uma alvorada, 
Que me saiba perder... pra me encontrar... 




Rafaela Valverde

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Que burra, dá zero pra ela!


Eu hoje estou ouvindo Los Hermanos, minha banda preferida. Eu cheguei e decidi que ouviria a sofrência deles, a poesia deles. Eu cheguei da faculdade depois de uma prova desastrosa, da matéria que está me acabando esse semestre: morfologia. Eu pela primeira vez na minha vida universitária chorei fazendo uma prova, no meio de uma prova.

Chorei e não tenho vergonha de falar. Essa situação toda, a universidade e alguns professores é que deviam se envergonhar de fazerem isso com a gente. Porque sei que não sou só eu sofrendo. Não dá para dizer que não me interessei, que faltei aulas, que não fiz os exercícios, que não li os textos, que não estudei. Não. É impossível dizer isso.

Eu fiz tudo isso. Desde que o semestre começou eu só faltei dois dias de aula e mesmo assim um foi no dia 21/12! Eu estudei esses dias como uma louca. Mas não caiu o que eu estudei, da forma que eu estudei. Os exercícios feitos em sala de aula tinham um nível e a prova teve outro nível completamente diferente. Eu fiquei muito frustrada, me achando incapaz, burra. Fiz até um desabafo no Facebook lamentando essa sensação de fracasso que a gente suporta dia após dia na universidade. O problema  está cada vez maior e mais sério e ninguém se importa.

Eu risquei a prova com força, eu não consegui me controlar, eu chorei e eu saí com os olhos inchados. Eu nunca me senti tão burra como me sinto nesse um ano que estou na UFBA. Um ano que se completa hoje inclusive. E assim que eu estou comemorando. Com um gosto amargo na boca, com essa sensação terrível de ser burra, cada vez mais burra. É uma disciplina pesada, com muitos conteúdos, muitos nomezinhos e conceitos confusos, muitas vezes até bem parecidos. É mais um desafio que perco, mas no entanto sei que justamente pela matéria ser assim, um exercício poderia ter sido feito antes para ajudar, mas enfim, não vou ficar culpando ninguém, nem mesmo a mim.



Rafaela Valverde

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Filme Olho por Olho


Estou aproveitando esses poucos dias de férias que eu tive, já que segunda feira já começa o semestre 2016.2 por isso estou assistindo muitas coisas. Comecei a assistir a antiga e clássica Friends, indicada por amigos e já bastante conhecida por mim. Estou devorando Grey's Anatomy e estou assistindo alguns filmes.

Ontem vi um filme de 1996, ou seja de vinte anos atrás. Sei lá, tava passeando aleatoriamente no netflix e me deparei com esse filme, gostei da sinopse e decidi assistir. O filme é Olho por Olho. Dirigido por John Schlesinger, o filme  é um suspense, um bom suspense integrado por  Sally Field, Ed Harris, Olivia Burnette entre outros.

Uma família é abalada pelo estupro e morte violenta da filha mais velha. A mãe ouve toda a cena do ataque pelo celular, já que estava falando com a filha. Ela entra em desespero e em meio ao engarrafamento se vê impotente para ajudar a filha. A constatação da morte violenta da menina vem com a chegada em casa.

Daí em diante iniciam - se as investigações e as buscas pelo bandido. Logo um suspeito é pego e vai a julgamento, sendo solto por inconsistências de provas. O que se segue daí em diante é uma trama bem feita mas com o final meio previsível, apesar de  alguns detalhes surpreendentes. Eu gostei bastante desse filme e eu adoro suspenses. Recomendo.



Rafaela Valverde

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Agradecer!!!


Eu não tenho do que me queixar. Estou na UFBA, onde sempre quis estar, apesar dos pesares. Sou bolsista de iniciação científica. Isso não foi possível para mim nos dois anos em que estive na UNEB. Lá não houve tantas oportunidades desse tipo. Eu acredito na pesquisa. É um dos pilares da universidade e conta pontos para seleção no mestrado, um dos meus maiores sonhos.

Com essa bolsa eu posso me dedicar um pouco mais aos estudos e à pesquisa ao invés de apenas estudar para me formar e trabalhar para manter a graduação e conciliar tudo. Além disso, eu tenho poucos e bons amigos ao meu lado, tenho uma família incrível que me ama e me ajuda. Tenho uma coisa que eu acho que pode ser um dom, que é o dom da escrita e sei que escrevo bem.

Posso, apesar da crise, pagar e comprar algumas coisas como por exemplo a Netflix que me proporciona tantas séries e filmes bons, como Grey's Anatomy, House of Cards e outras que eu amo e me emociono. Me ajudam a escapar da minha rotina louca. Enfim, tenho auto estima e tenho algumas coisas que sempre quis. Inclusive paz.

E de pensar que há poucos meses eu queria morrer todo dia. Não tinha vontade e alegria de nada. Mas hoje eu estou bem e preciso muito agradecer. Por mais que eu agradeça todo dia ainda não é suficiente. E ainda há meu querido Cássio, meu namorado. Uma surpresa que apareceu esse ano e uma das quais eu me sinto mais grata. Uma nova paixão, mas uma amizade das antigas. Sim, eu conheço Cássio desde 2004 quando começamos o ensino médio. Meio que éramos amigos, e meio que rolou uns beijos não muito legais, mas não havíamos nos visto ou nos falado nos últimos anos. A não ser por uns contatos esporádicos pelo Facebook e num grupo da turma no WhatsApp. Mas um belo dia nos reencontramos...O beijo melhorou! rsrsrs Essa história eu conto depois. O que quero dizer é que depois de tanta dor hoje eu sou feliz e sou muito grata!



Rafaela Valverde

domingo, 23 de outubro de 2016

Desperdício no RU da UFBA


Observando os pratos recém utilizados no Restaurante Universitário da UFBA chamado carinhosamente de RU, eu percebo o quanto a gente desperdiça comida. É muita comida no lixo! Imagine que são servidas mil e duzentas refeições nos dois horários desse RU. No almoço e no jantar. E a maioria, ou uma boa parte dessas pessoas que são servidas, joguem restos fora. Pequenas porções que não seriam bem vindas no estômago, que encheriam demais a barriga.

Ninguém se importa, ninguém observa, mas de resto em resto devem ser toneladas de comida no lixo todos os dias. Comida que é demais para uns e escassa para outros. Não há, ou pelo menos eu não vejo ou sei de alguma campanha da universidade ou da escola de nutrição contra o desperdício de alimentos. Fora que se a comida fosse um pouco mais gostosinha os alunos comeriam melhor. E se os próprios alunos servissem a comida - que hoje é servida pelas atendentes -  reduziria, ao meu ver o desperdício que é bem grande.

Eu vejo muitas pessoas, muitas mesmo com restos de comidas nos pratos e isso me dá uma dor no coração. Eu não gosto de desperdiçar comida e não gosto de ver ninguém desperdiçando comida. Creio que ações simples poderiam evitar tanto desperdício. O Brasil é um dos países do mundo que mais jogam comida fora e ao mesmo tempo um dos maiores em número de fome. Há um paradoxo já conhecido, mas ninguém faz nada.

É isso, eu tenho que lidar com a minha impotência com algo que parece ser tão simples mas não é. É grave. É um problema que se minimizaria com ações simples. Mas que não interessam. Não interessam por quê? Cada um de nós pode simplesmente comer a comida toda ou pedir para as moças que servem não colocarem tanta comida, ou ainda pode colocar menos salada ou não pegar a fruta que é servida como sobremesa. Eu já vi gente jogando salada e fruta fora sendo que esses dois itens são os alunos que se servem, tendo a opção de pegar ou não. Eu acho uma falta de consciência pegar só para jogar fora. É um egoísmo, uma falta de bom senso. Se não vai comer, não sirva e não jogue comida fora!



Rafaela Valverde

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Terapia


Comecei a fazer terapia. Finalmente. Sabia que precisava há muito tempo. Após uma série de desabafos de alunos da UFBA veiculados na mídia, falando sobre o mal estar que vivemos hoje na universidade, onde vivemos atolados e infelizes; surgiram várias iniciativas para terapias para nós alunos. Uma delas foi lá mesmo, na UFBA.

É uma terapia em grupo, com um psicólogo formado pela UFBA. O grupo inicialmente seria de dez pessoas mas estamos em seis. Já no primeiro dia, me fez muito bem ver aquelas pessoas passando por quase as mesmas coisas que eu venho passando. Sabe, de repente a gente deixa de achar que a culpa é nossa por não estar suportando e percebe que há uma instância maior, que atinge muitos alunos.

A gente não tem tempo para fazer quase nada do que a gente gosta no decorrer do semestre. A gente não conta com compreensão e flexibilização por parte de alguns professores. A gente tem que lidar com prepotência e desorganização. A gente praticamente não têm férias. A gente acaba odiando tudo isso. A gente odeia a área que a gente ama, a gente odeia ir às aulas, a gente odeia as pessoas. Tudo.

A gente só quer se formar logo. E assim tem gente lá do grupo que pega nove, sim eu disse nove disciplinas para poder terminar e se livrar logo. Isso é um sofrimento, é opressor. A gente passa até 12 horas dentro da universidade, a gente perde o prazer de fazer outras coisas, de fazer coisas que a gente gosta. A gente não têm mais tempo, na verdade. A gente pensa: "com tantas coisas para fazer, eu tô aqui vendo série, ou aqui vendo o pôr do sol."

É triste, é tenso. Mas estou conseguindo me libertar um pouco disso. Decidi que enquanto eu estiver sem trabalhar eu não vou estudar aos finais de semana e feriados, eu vou me organizando durante a semana e por enquanto está dando certo. Fico a semana toda atolada, mas consigo. Uma outra atitude que estou tomando para descansar a minha mente de toda essa agonia é ver um episódio da série que estou assistindo por dia. Ler outros assuntos, escrever, ouvir música, mesmo que seja no ônibus ajuda bastante. A nossa mente merece, o nosso corpo merece. Não dá para trabalhar o tempo todo, cumprir prazos o tempo todo e viver no standy by, no automático, sempre cansada, só sobrevivendo ao invés de viver plenamente.



Rafaela Valverde

domingo, 9 de outubro de 2016

Literatura é sempre literatura


A literatura sempre e sempre fará parte da minha vida. Eu quando criança lendo Agatha Chistie entre outros não me importava se era literatura boa ou ruim. Eu não me importava e nem sabia que existia classificação literária ou cânone literário. Só fui conhecer a palavra cânone quando entrei na faculdade de letras no início desse ano.

Eu não queria saber disso. Eu não estava e acho que ainda não estou afim de classificar. Não tem que ter classe, nem função e serventia. Literatura é literatura. Eu só queria devorar todos os livros que eu pudesse, eu queria ler, mas ler mesmo. Ler sempre. Por que eu amo ler e ler é muito gostoso. Ler traz vários benefícios para a vida da gente. É isso que digo a todo mundo que quer escrever melhor. É isso que digo a meus alunos e sempre direi.

A literatura abarca muitos conceitos e muita abstração. Conheço algumas pessoas, inclusive professores que desistiram da literatura por que ela tem muita "abstração" e que é "demais" para a cabeça. Mas eu não desisto da literatura, apesar de às vezes a universidade meio que fazer a gente detestar um pouco suas teorias e conceitos. A gente sai um pouco da ilusão de que literatura é apenas um hobby, é apenas fruição. Literatura vira realmente coisa séria. E é.

Mas eu não me importo, eu quero é ler. Eu tenho a capacidade de saber se aquela literatura é boa ou não para mim. Eu não tenho obrigação de classificar nada e até os próprios teóricos não sabem classificar, identificar ou até mesmo entender a função da literatura direito e sou eu que vou me preocupar com isso? Eu não. Deixa isso para a hora certa. Talvez a hora em que eu  vá fazer mestrado de literatura quem sabe. Mas enquanto não chega esse momento eu fico mesmo com Compagnon quando ele diz: "[...] para aquele que lê, o que ele lê é sempre literatura [...]"



Rafaela Valverde


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A menina das telas


Estou sem as minhas telas. Meu celular e meu tablet deram pau ao mesmo tempo e ambos já estão no conserto. Mas eu cheguei a conclusão que sou a menina das telas. Gosto sim de estar cercada por telas. Nem eu sabia disso. Mas quero as telas que eu possa ter e que o dinheiro (o pouco que eu tenho) possa me oferecer.

Eu sinto falta do meu celular o tempo todo e até fiquei meio jururu. Primeiro pelo prejuízo, especialmente quandro os dois quebraram ao mesmo tempo e segundo por que sinto falta dele, simplesmente. Estou carente. Fico procurando. Às vezes vou me deitar e procuro o celular para dar uma última olhadinha no Facebook antes de dormir. E já acordo pensando em pegar meu celular. Ele despertava para eu acordar e era a primeira coisa que eu fazia ao acordar era tocar nele, é claro. E depois ligava o wifi.

Não sei até que ponto isso é prejudicial ou não, mas hoje estamos mais que inseridos nesse mundo das telas. Eu adoro tablet. Tablet é uma coisa mágica, parece até do capeta! rsrsrs É sério, eu fazia quase tudo pelo tablet. Acessava meu e-mail, internet em geral, via minhas séries e filmes; lia textos da faculdade - é uma mão na roda e foi por isso que eu comprei - lia livros, etc, etc, etc. Foi o segundo tablet que eu tive e esse foi com meu dinheiro, sabe? O outro foi presente. E eu adoro tablet mesmo.

Eu até pensei em comprar um kindle que é um leitor de livros on line ou PDF da Amazon. Mas apesar da qualidade comprovada, da boa leitura que oferece eu prefiro mesmo um tablet que até mesmo tira foto. Enfim, parece que não tenho muita sorte com esses aparelhos, pois quebram. Sempre quebram. Eles não gostam de mim. Meu notebook quebrou há uns anos, já foi consertado e quebrou de novo.

Eu não gosto muito de consertar aparelhos, sou mais de ir lá e comprar outro. Se tiver grana, é claro. Como não tenho, não estou tendo, então fico sem mesmo. Eu adoro comprar celular. Estava pensando nisso essa semana. Sim, eu adoro comprar celular. Aquela sensação de tirar da caixa, ver o aparelho novinho, aprender a usar... é gostoso. E consumista! Eu sei, mas ainda assim se eu pudesse eu comprava um celular por ano. É isso, sou a menina das telas.



Rafaela Valverde
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