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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Uma manhã...

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Ela tinha acabado de correr, por isso estava ofegante e suada. A esteira ainda ligada na tomada. O cômodo tomado por seu cheiro. Hidratante e seu suor quente. Mistura química que me enlouquece. Andava de um lado para o outro, impaciente. Devia estar atrasada. Sempre se atrasava quando corria de manhã. Observei- a pelo que pareceu ser uma eternidade, antes de entrar no quarto. Coque no alto da cabeça, camiseta rosa bebê, calça legging estampada. O tênis já estava no canto. Seus pés à mostra. Unhas pintadas de vermelho. Os pés mais lindos e sensuais que já vi na vida.

Entrei enquanto ela estava de costas e a abracei beijando-a no pescoço. "Cheguei"- disse em seu ouvido. Mais um plantão, mais uma noite que ficara fora de casa, longe dela. Ouvi o som do seu sorriso por saber que eu estava ali. Virou e me beijou suavemente. Beijo de saudade. "Tô atrasada." Respondi que sabia e que não iria incomodá-la. Revirou os olhos dizendo muda que eu não incomodava. Sabia que era isso que queria dizer. Tirei a roupa do trabalho e entrei no banho, enquanto ela continuava sua saga matinal.

Nossa rotina estava pesada. Quase não nos encontrávamos mais. Eu chegava e ela saía. Respirei fundo sentindo a água passeando pelo meu corpo. Cheguei cansada, mas cheia de tesão. Queria-a. Mas hoje não parece ser um bom dia. De costas para a entrada, me ensaboando, ouvi o barulho do box se abrindo e me virei. Lá estava ela, nua. Me olhando daquele jeito gostoso. Me beijou com veracidade, reavivando meu corpo.  "Liguei pra lá e disse que vou me atrasar..." - disse. Agarrou meu cabelo e me empurrou até a parede, me beijando cada vez com mais força. Meu corpo ainda estava cheio de sabão e sua mão escorregava sobre ele. Me apalpava com intensidade, parecia que eu iria escapar caso não me segurasse.

De repente parou. Me enxaguou, retirando o sabão do meu corpo. Se ensaboou rapidamente, me provocando e fazendo aquela dancinha boba que eu gostava. Terminou seu banho enquanto eu fica ali parada, olhando-a. Abriu o box, saindo do banheiro sem se secar. Sorri. Vesti o roupão e fui atrás. Ela havia deitado na cama, nua, molhada e de bruços. As pernas jogadas pra cima. Pouco se importando comigo...

Tirei o roupão e me joguei de leve por cima dela. Beijando suas costas molhadas até quase o bumbum. Massageei suas pernas e pés. Ah, aquelas unhas vermelhas... Virei-a beijando sua boca suavemente, acariciando seu cabelo. Passeei a língua pelos seus seios e ela gemia baixinho. Aréolas, bicos... Mordicadas de leve e ela ficava cada vez mais enlouquecida. Seu olhar pegava fogo. Intercalava beijos, mordidas e lambidas em sua barriga, me concentrando no umbigo. Nessa hora, ela já puxava meu cabelo e gritava.

Sentir seu gosto era o momento mais esperado. Foi o que eu fiz. Mergulhei em seu universo enquanto a chupava. Ela estava deliciosamente excitada, molhada. Fazia movimentos diversos com a língua. Sentia prazer com seu prazer. Ela gemia e apertava minha cabeça e ali eu permanecia obedientemente. Passeando minha língua, matando meu tesão. Satisfazendo-a. Língua, dedos, saliva, suor, água... Nós duas ali, esquecendo horários, obrigações e tudo que não fosse nós mesmas e nossos corpos...

Gozamos. Arfantes, deitadas lado a lado olhávamos para o teto. Mãos dadas. Não falamos nada. Não precisava. Eu sabia o que ela pensava e vice-versa. Depois de vários dias, tivemos uma transa deliciosa. Nossa sintonia aumentava, nossos corpos se entrelaçavam e crescia o tesão. Ela virou de lado, olhando diretamente para mim. O sorriso safado ainda estava ali. Se jogou em cima de mim, me beijando. Recomeçamos...


Rafaela Valverde





quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Finitude

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Você sabe que a vida acaba não é?
Ciente do fim, você sabe que a vida tem que ser aproveitada
Não, não é apenas  um clichê dito por quem quer "meter o loko"
Não é mesmo!
Viver burocraticamente é apenas sobreviver
Coragem!
Você sabe que a nossa matéria acaba um tantinho dia após dia, não é?
Eu sei que você sabe
Tu estuda essas transcendências da vida que eu sei
Sua preguiça de florescer é o que mais me irrita
Você pensa que sabe tudo ou pelo menos muito
Oh, de nada você sabe
Você devia saber e ter certeza apenas que a vida, essa dádiva tão plena e bela que
foi dada a você e a nós, tem um momento para acabar
Não fique aí dando vacilo, achando que tem todo tempo do mundo
Você não tem, ok?
Espantalho!
Isso é um pseudo-palavrão que está aqui porque isso é um poema e não posso escrever o palavrão que rima com ele.
Espero que você realmente saiba o que tá fazendo.
Ficando na frente desse Big Brother gigante aí na sua sala, curtindo fossa na cama ao invés de curtir esse lindo céu azul-frescor e esse sol cheio de vitamina D.
Vai, sai da minha frente.
Enquanto você não tiver o melhor plano de viver da face da terra, eu não quero papo com você.



Rafaela Valverde


A Sua - Marisa Monte




Eu sou completamente apaixonada por essa música. Até porque é Marisa, né?




Eu só quero que você saiba
Que eu estou pensando em você
Agora e sempre mais
Eu só quero que você ouça
A canção que eu fiz pra dizer
Que te adoro cada vez mais
E que eu te quero sempre em paz

To com sintomas de saudade
To pensando em você
Como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Pois te quero livre também
Como o tempo vai o vento vem

Eu só quero que você caiba
No meu colo porque
Eu te adoro cada vez mais
Eu só quero que você siga
Para onde quiser
Que eu não vou ficar muito atrás

To com sintomas de saudade
To pensando em você
Como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Pois te quero livre também
Como o tempo vai o vento vem

Eu só quero que você saiba
Que eu estou pensando em você
Pois te quero livre também
Como o tempo vai o vento vem
Porque eu te quero livre também

Como o tempo vai o vento vem



Rafaela Valverde

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Tá bom - Los Hermanos


Senta aqui
que hoje eu quero te falar
não tem mistério não
é só teu coração
que não te deixa amar
você precisa reagir
não se entregar assim
como quem nada quer
não há mulher irmão que goste dessa vida
ela não quer viver as coisas por você
me diz cadê você aí
e aí não há sequer um par pra dividir

senta aqui
espera que eu não terminei
pra onde é que você foi
que eu não te vejo mais
não há ninguém capaz
de ser isso que você quer
vencer a luta vã
e ser o campeão
pois se é no não que se descobre de verdade
o que te sobra além das coisas casuais
me diz se assim está em paz
achando que sofrer é amar demais



Rafaela Valverde

Ela é força

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Ela é tão forte que nada é capaz de destruir
Pensa em desmoronar, em ruir
Mas ela parece inquebrantável
Aço reforçado, energia inesgotável

Não que ela não tenha se sentido fraca
Sim, isso já aconteceu
Manhãs de ressaca
Em raros momentos a enfraqueceu

Nada que um banho e uma xícara de café não curasse
Momentos de catarse!
Daqueles que renovam; fortalecem mais
Estar consigo mesma, sem olhar para trás.



Rafaela Valverde

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Vida aleatória e sem sentido

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A vida é como um filme, ou talvez até uma série. Com vários episódios, uns bons, outros nem tanto. Vai alcançando ápices de conflitos, realizações e conquistas. Mas também há aqueles episódios decepcionantes, em que não acontece nada. E as temporadas sem emoção, sem nada bom. Parece que foram mal escritas. 

Séries são escritas por alguém e não são aleatórias. Seguem uma lógica, ou pelo menos deveriam. A vida já nasce sem lógica. Aleatória e sem sentido como já diria W. Somerset Maugham. Não sei porque nasci, nem quando vou morrer. Só sei que vou morrer em algum momento. E é isso que dá sentido à vida: a certeza de que um dia a morte vai chegar. Isso impulsiona a vivência. Afinal, é preciso aproveitar a vida, antes que tudo acabe e vire um vácuo escuro.

Tantas pessoas nesse mundo. Só em Salvador são quase quatro milhões de pessoas. Mais de sete bilhões no planeta e eu aqui querendo que alguma energia superior olhe por mim. Alguns preferem chamar essa energia de Deus. Eu também, às vezes, mas creio que essa força, essa fé que nos impulsiona a acreditar em alguma coisa está dentro da gente.

Se faz necessário crer em alguma coisa para sobreviver, para não surtar ou entrar em depressão. Daí a gente inventa a fé e inventa Deus. Assim, continuo com o exemplo das séries para ilustrar a vida. A gente precisa acreditar nos roteiristas, nos produtores e atores para compreender e aceitar os destinos dos nossos personagens preferidos. Tendemos a acreditar que os conflitos de cada episódio são a vontade do roteirista, assim como deixamos certas coisas a cargo de Deus, como se fossem seu desejo. E nem sempre temos a comprovação de que isso é realmente verdade. Não temos como comprovar nada. Mas precisamos acreditar. Desesperadamente. Alguma coisa precisa fazer sentido para que possamos aceitar melhor determinados fatos da vida, ou a falta deles.

Aí vem nossos questionamentos sobre a vida, sobre as coisas que a gente consegue ou não na vida, mesmo que peça, mesmo que implore, mesmo que faça promessas. Enquanto isso pessoas ordinárias vivem bradando suas vitórias. A gente começa a se perguntar o que está fazendo de errado e porque simplesmente as coisas não fluem e porque a gente não consegue felicidade, paz e calmaria. É tudo muito injusto e repito: aleatório e sem sentido. Dizem que as energias que lançamos ao universo voltam para a gente exatamente como lançamos, portanto quando ajudamos as pessoas, somos gentis, não fazemos maldade e somos positivos essas coisas deviam retornar para a gente com coisas boas. Mas não é bem isso que acontece. Bom, pelo menos não para mim, pelo menos quase sempre, porque as coisas quase sempre desandam e eu me pergunto diariamente sobre isso.

E por outro lado vejo que pessoas falsas, fofoqueiras, invejosas, mentirosas e com mau caráter se dão bem na vida, ou pelo menos aparentam estar muito bem. Aí eu me pergunto porque a vida não funciona como as séries, filmes, livros, etc., onde os mocinhos se são bem e vivem felizes e os vilões morrem ou vão presos e sempre se dão mal. Como gostaria que a vida fosse uma série.


Rafaela Valverde

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Foi assim a gente na cama

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Foi doce e ao mesmo tempo ardente. Isso é possível quando nós dois estamos no mesmo recinto, no mesmo colchão. Chocolate e Pimenta. Vinho seco e vinho tinto daqueles bem vagabundos e doces. Os opostos. Que se conectam não apenas com o corpo numa linda dança, uma coreografia bem ensaiada. 

E foi assim que foi. Sem nenhum ensaio prévio. E quando me dei conta estava em cima de você. Foi tudo muito louco. Ainda de roupa, já estava molhada. Os flashs que vêm à minha cabeça por si só já são deliciosos. Você me chupava com uma voracidade, uma sede. De uma forma que eu nunca havia sido chupada. Tanto desespero, tanto destempero e agonia se tornaram um boom estonteante de prazer do início ao fim.

Mordia sua orelha e passava minha língua nela só pra ver você se derretendo. Nossa dança continuava, sincrônica e suave, selvagem e desajustada. Brincávamos de explorar nossos corpos em plena luz do dia. Luz que entrava pela janela transformando a penumbra do quarto em mais lascívia. Cada vez mais. Gemia de prazer com cada gesto seu, que me movia como se soubesse todos meus pontos erógenos  e sabia. Todos meus pontos de prazer. 

Ás vezes gritava porque não conseguia mais ficar calada porque você é demais. Faz tudo bem. Bem até demais. Como eu não imaginava muito, confesso. Há tempos que não tinha um sexo tão incrível. Uma outra pessoa não me dava tanto prazer há um tempo relativamente bom. E nem só por isso, mas pelo fato de me sentir desejada. Me senti uma deusa exclusiva e maravilhosa.

Entre um rolar na cama e outro, beijos quentes e carinhos fofos que me deram gosto de ter usado meu hidratante caro. Deixei minha pele mais macia e parece que você adivinhara, porque me acariciava de uma forma tão doce e ao mesmo tempo libertina que eu lembro desses toques até hoje. E assim é que foi: carinhoso e sensual. Indomável e dócil. É assim que foi. Deitamos de conchinha e o que você falou em meu ouvido com essa voz gostosa está ecoando até agora... Gozamos juntos e ficamos ali abraçados, de conchinha, sentindo o calor do corpo do outro e esperando a próxima vez.



Rafaela Valverde

sábado, 26 de agosto de 2017

O Sol

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Tomei um susto
Quando você se foi
Achei que era pra sempre
Afinal eu já tinha ido também
Voltei há pouco tempo
E já te perdi?
Como assim?
Mas você não vai
É persistente como eu
Insiste que nem o sol nascendo todas as manhãs
E mesmo em dias nublados o sol está lá em algum lugar
Assim é você
Está em algum lugar
Circundando minhas áreas
Observando minha vida
Ameaçou que ia
Mas voltou
Que pirraça!
Sei que você sempre volta
Exatamente como o sol
Ei, você tem sido um tipo de sol
Nesses meus dias escuros
Em que nem a chuva aparece



Rafaela Valverde

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Quero pedir desculpas a todas as mulheres - Rupi Kaur

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quero pedir desculpas a todas as mulheres

que descrevi como bonitas

antes de dizer inteligentes ou corajosas

fico triste por ter falado como se

algo tão simples como aquilo que nasceu com você

fosse seu maior orgulho quando seu

espírito já despedaçou montanhas

de agora em diante vou dizer coisas como

você é forte ou você é incrível

não porque eu não te ache bonita

mas porque você é muito mais do que isso


Que coisa linda!


Rafaela Valverde

Uma lista de tarefas para o amor próprio - Key Ballah

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- Lave sua pele com água morna.
- Use o dedo indicador de sua mão direita para comer mel direto do pote.
- Escreva uma carta de amor para si mesma.
- Peça para sua mãe dizer o quanto ela te ama. Ouça com cuidado a verdade em sua voz.
- Diga ao seu pai que você o perdoa.
(Tente perdoá-lo, por mais clichê que isso soe, o perdão é na verdade para você).
- Leia o primeiro capítulo do seu livro favorito, se você não conseguir parar, leia o quanto conseguir.
- Saia de casa. Não importa o clima, mesmo que você só fique em uma varanda, mesmo que seja apenas por alguns segundos. O ar fresco queima a tristeza.
- Se alongue…
- Toque todas as suas cicatrizes e relembre seus aniversários, lembre-se de quão longe você veio.


Eu amei esse texto!


Rafaela Valverde

Metonímia - Angélica Freitas

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alguém quer saber o que é metonímia
abre uma página da wikipédia
depara com um trecho de borges
em que a proa representa o navio

a parte pelo todo se chama sinédoque

a parte pelo todo em minha vida
este pedaço de tapeçaria
é representativo? não é representativo?

eu não queria saber o que era
metonímia, entrei na página errada
eu queria saber como se chegava
perguntei a um guarda

não queria fazer uma leitura
equivocada
mas todas as leituras de poesia
são equivocadas

queria escrever um poema
bem contemporâneo
sem ter que trocar fluídos
com o contemporâneo

como roland barthes na cama
só os clássicos


Rafaela Valverde

Livro Machado - Silviano Santiago - Parte II

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 Texto escrito para avaliação da disciplina O Cânone Literário Brasileiro do curso de Letras Vernáculas da UFBA, onde estudo.

Não há espaço para best-sellers, desses que lotam as linhas de frente das livrarias nos dias de hoje – na Academia Brasileira de Letras. Nem no cânone. Mas, o cânone pode ser bastante relativizado. Cada pessoa pode ter o seu e dessa forma, um best-seller pode estar presente. São possibilidades. Tudo é possibilidade. Nada é estanque, sobretudo no que tange ao conhecimento e a literatura.

Porém, é correto afirmar que o cânone existe, os cânones existem desse sempre. E são necessários, pois não há como ler todas as obras literárias lançadas no mundo.

O próprio Silviano Santiago se apropriou da ideia de cânone ao construir o livro. Ele utilizou as leituras do próprio Machado, como por exemplo, Flaubert – olha ele novamente – autor que estava presente com todas as suas obras na estante do escritor brasileiro. Além disso, havia a forte presença do romancista José de Alencar, amigo do morador do Chalé do Cosme Velho. Não tinha como falar de uma personalidade tão intensa, sem passar pela crítica literária. Além dos demais aspectos que envolvem a literatura hoje e na época em que viveu Machado de Assis. 

Autores desconhecidos também fazem parte do bem tecido emaranhado literário que é Machado. Mário de Alencar foi um deles. Mário era filho de José de Alencar e melhor amigo de Machado de Assis. Além disso, era seu discípulo e protegido, auxiliado pelo autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, na eleição para a cadeira na ABL.

Mas Machado não tinha muitos amigos, especialmente após a morte de Carolina, sua esposa portuguesa. Especialmente nos últimos anos com as crises epilépticas e as ausências, como ele chamava os desmaios, e vertigens. Essas crises afetavam a saúde de Machado e o faziam passar vergonha. Mas as enfermidades também o aproximou de Miguel Couto, ex médico de sua esposa. Doutor Miguel Couto passa a ser médico de Machado também, a partir do momento da primeira crise epiléptica e posteriormente de Mário de Alencar que passa a apresentar os mesmos sintomas do mestre, do pai espiritual que ele considerava.

A melancolia acompanhava o velho bruxo. Junto com as ausências e as convulsões. Ele não se afastava do trabalho, mesmo com os problemas de saúde. O que Silviano traz para o livro é o convívio de uma pessoa idosa com uma saúde frágil. Saúde que lhe oferecia diversas limitações. Na alimentação, na locomoção e até nos passeios que fazia, especialmente pela livraria Garnier. Silviano faz um paralelo com a sua própria vida de homem idoso, morando sozinho e convivendo com a melancolia. Como ele mesmo afirmou em uma de suas entrevistas, o romance é um romance de sobrevivência. Daqueles que trazem personagens em seus últimos momentos de vida. Assim é com Machado de Assis, assim é com o próprio Silviano. Pelo menos assim ele se colocou, do alto dos seus 81 anos, como alguém que estava em sobrevivência. Aí, mais uma vez, assim como em vários outros momentos do livro, narrador, autor e personagem principal de confundem como se fossem um só. E confundem também o leitor.

Quando lemos, às vezes, fica difícil saber quem está se pronunciando ali. Quem está desenvolvendo aquela ideia, aquela crítica ou quem está contando a vida de Machado de Assis. O Rio de Janeiro se transforma, se moderniza, fica parecida com Paris, enquanto personagens e estórias vão se desenrolando. É claro que a história não pode ficar de fora, sobretudo a história da cidade do Rio de Janeiro, que desde essa época já sofria com ação de bandidos. Com muitas notícias e imagens de jornais da época, podemos saber como funcionava a dinâmica da cidade da época. Por exemplo, na página 181 há o episódio do assalto à casa do doutor Miguel Couto na rua Senador Dantas. Objetos de valor da família são roubados e em plena a luz do dia. “Não falta policial nem sobre ladrão. Falta é policial que percorra as ruas, patrulhando a cidade.” Afirma o narrador. Atual, não?


Outros episódios dão conta ainda da falta de infraestrutura que tomava conta da cidade. Faltava água e as pessoas ansiavam por chuvas. As pessoas pobres, durante o processo de urbanização e modernização do centro foram expulsas para as partes mais altas da cidade. Olha as favelas nascendo!  Machado de Assis tinha assistia com desalento a mudança da sua cidade. Para o que ele considerava ser pior. A cidade do Rio de Janeiro e sua história não podiam ficar de fora de um livro que fala tão detalhadamente de um dos autores que mais retratou em suas obras, a cidade maravilhosa.

E por falar em suas obras, o livro de Silviano Santiago traz alguns detalhes sobre seu último livro: Memorial de Aires. A construção dos personagens e a comparação com outros personagens dele. Memórias Póstumas de Brás Cubas também é analisada da forma “silvianica”. Ele traz referências à ciência, à bíblia, à literatura mundial, à arte entre vários outros assuntos que são abordados nesse preciosíssimo livro.
O capítulo nove, penúltimo,  Manassés e Efrain começa indicando a pouca vida que ainda restaria a Machado. Últimos meses de vida que se encerra em 29 de setembro de 1908. Esse capítulo destrincha a amizade de Mário de Alencar e Machado de Assis, confirmando a ideia que o primeiro esteve com o segundo até o fim. Um era bastante leal ao outro e na página 339 há a seguinte passagem: “Mário de Alencar é o alter ego do velho Machado de Assis, em quem ele confia como não se confia em imagem no espelho.” Essa é a ideia que o narrador ou Silviano Santiago tem da amizade dos dois escritores. Claro que houve muita pesquisa e com certeza era uma amizade muito boa mesmo, com lealdade. Será que Silviano tem um Mário de Alencar em sua vida? A amizade é um dos temas mais presentes no livro do crítico literário.

Por fim, o capítulo dez, Transfiguração, Silviano relaciona as leituras realizadas por Machado ao conjunto de sua obra e sua vida. “Machado de Assis tem na biblioteca tudo o que Gustave Flaubert e Stendhal publicaram no século XIX.” (p.379). Várias outras questões são abordadas nesse capítulo, é claro que para saber é preciso ler o livro, não vou aqui me adentrar em todas elas. Apenas estou pontuando e tentando “comentar” – já que analisar seria muita audácia da minha parte – as que mais me chamaram atenção.  Para finalizar devo aqui registrar que o livro é aberto com a pintura Transfiguração, de Rafael e nesse capítulo, o último e de mesmo nome, Silviano faz uma pequena análise do quadro e o relaciona com as crises convulsivas de Machado. Uma das hipóteses que Silviano cria é que há um rapaz com crises epiléticas no quadro, olhando para Jesus, que flutua no centro na imagem. 

Como já havia dito, o livro é um emaranhado –  a meu ver organizado – de informações, de saberes, de questões a serem abordadas. Seriam necessários vários anos e várias teses para analisar detalhadamente a obra de arte chamada Machado. E ainda assim não se daria conta. Para além do romance, da biografia, do rinoceronte e da sobrevivência, o livro é um compilado de cânones. O livro nasceu para ser cânone e daqui há cinquenta anos com certeza ele e seu autor serão lembrados. Como não deixar esse livro ser cânone? Como não permitir que seja? Como afirmar que uns cânones não devam existir? Provavelmente não é possível, pois, essa obra já nasceu para ser cânone. Já nasceu para consolidar seu autor, idoso e sobrevivente solitário em seu apartamento cheio de livros, como autor canônico. Autor que deve ser lido. E com certeza será.



Rafaela Valverde



Livro Machado - Silviano Santiago - Parte I

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Texto escrito para avaliação da disciplina O Cânone Literário Brasileiro do curso de Letras Vernáculas da UFBA, onde estudo.


Machado é um romance que não é romance. Uma biografia que vai além dos fatos da vida de alguém. Ensaio que já é o espetáculo. Espetáculo protagonizado pelo mímico do Cosme Velho, Machado de Assis. Retratada já em sua fase final, a vida de Machado de Assis foi bastante complexa.

Descendente de escravos, Machado sempre viveu de forma humilde. Conviveu com a escravidão durante grande parte da sua vida, até a abolição. Esta temática esteve bastante presente em sua obra. O livro retrata, porém os últimos quatro anos da sua vida. A partir de cartas escritas entre 1905 e 1908, Silviano Santiago construiu a grande obra biográfico-ensaística-romanceada-pitoresca e rica.

Além de uma grande homenagem, Machado pode ser considerado um bom almanaque de literatura. E não só brasileira. E não só de literatura. Almanaque de história, crítica literária e dos últimos momentos da vida do Bruxo do Cosme Velho.

Como o próprio Silviano Santiago declarou em uma de suas entrevistas: não era possível escrever um livro simples sobre a vida de alguém tão complexo como Machado de Assis. Por isso, o livro tão multifacetado. Não dava para ser uma simples biografia narrando fatos da sua vida e descrevendo dados e anos. Um romance simples, porém, não bastaria. Fazia-se necessário um livro grandioso, para a posteridade.

É claro que a intenção de fazer um livro como esse não é apenas homenagear um grande escritor e o fundador da Academia Brasileira de Letras. Não. Silviano quer deixar para o futuro, algo de si mesmo. O que ele próprio sabe sobre literatura. Seu mestrado na França, ilustrado pelo grande conhecimento em Flaubert não deixa mentir. Além disso, inicia- se a consagração do escritor como cânone da sua geração. Já que Machado foi e ainda é um autor legitimado no Brasil e no mundo. Há ainda de lembrar que o processo de urbanização do Rio de Janeiro, fator que incomodava muito o Bruxo do Cosme Velho, se comparava desde sua composição ao processo de urbanização de Paris. Onde quem esteve? Silviano. Eles estão ligados. Silviano Santiago se liga a Machado. Sua ligação com o escritor está também no fato de que Silviano nasceu, anos depois, na mesma data de morte do mímico: 29 de setembro. Silviano estende seu vínculo. Ele se transporta para o início do século XX e teima em conviver bem próximo ao grande escritor brasileiro.

O livro traz diversas imagens, mas nem precisava: com a confusão organizada entre narrador, autor e personagens, a trama já se estampa. Com uma bem feita metalinguagem, o livro consegue narrar, com literatura, a própria literatura. Além disso, há a descrição detalhada da urbanização do Rio de Janeiro, com seus principais meandros e consequências sociais.

Como já sabemos o cânone ou os cânones são listas de leituras escolhidas e implementadas por alguém. E que esse alguém geralmente é formado por mais de uma pessoa ou até mesmo instituições. Principalmente as universidades e seus grandes doutores críticos. Há a certeza, é claro que essas pessoas e universidades estão imbuídas de poder. A ideia de cânone foi criada e consolidada ao longo da história ocidental. Quando a igreja mandava, o cânone existia para determinar o que os fieis podiam ler ou não. E quem mais já teve poder nesse mundo que a igreja? 

Machado de Assis está no cânone. Ouso até dizer que Machado é ele mesmo, um cânone. Além de escritor, já respeitado na sua época, funcionário Público nomeado pelo imperador, Machado foi também o fundador da Academia Brasileira de Letras, como todos nós já sabemos. Antes, os encontros literários eram realizados na livraria Garnier. Os encontros cresceram tanto que nasceu a academia. A própria ABL – um siglazinha carinhosa – já estabelece um cânone. A lista de cadeiras dos imortais que ali se encontram confirmam bem isso. A rejeição do desconhecido Mário de Alencar também.


Continua...


Rafaela Valverde

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Crepúsculo e alvorecer

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Do meu olhar para o crepúsculo
A noite se vai, levando minha mensagem
Para algum lugar
Para alguém
Que eu nem sei se vai receber
Que talvez nem vá ligar
Na manhã seguinte o pensamento volta
Como se o destinatário tivesse virado remetente
Já nem sei o que quero dizer
Penso em uma coisa
Falo outra
Mais uma vez chega o anoitecer
E com ele eu penso em você
Isso é tudo tão estúpido
Você nem estar mais lá
Para se importar
Para receber o que eu digo
Mais uma madrugada
Um alvorecer
Momentos de transição que me angustiam
Mudam de cor
Mas não mudam minha situação
De sempre te querer.



Rafaela Valverde


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Me tocando

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Está frio. Auge do inverno. Eu que moro em uma cidade litorânea, com sol o ano todo, não estou acostumada com tanto frio. O frio traz a carência, a vontade de dormir acompanhada. Penso em várias pessoas com quem poderia dormir, e não só dormir, nesses dias frios. Estou de moletom, calças e meias. Eles estão cheirando a naftalina, devido ao grande tempo guardado. Que excitante.

O programa da TV está muito chato. Programo-a para que ela desligue caso eu durma e puxo o edredom que faz uma montanha ao meu lado na cama. Gosto de pensar que é uma pessoa. Me enrolei toda e abri bem as pernas, imaginando alguém me chupando. Gostava de imaginar sexo oral, às vezes quando estava muito excitada.

E assim que estou agora. Muito excitada. Nem me lembro a última vez que estive assim, nem a última vez que transei. Estou pegando fogo e como diz uma amiga: "Eu vou sucumbir de tanto hormônio mal canalizado..." Rsrsrs

Não sei mais o que fazer então resolvo me satisfazer sozinha. Ultimamente não estão aparecendo mais homens que prestem para me satisfazer. Aquele sexo safado, com pegada, olhares, chupadas quase não existe mais. Parece que as pessoas praticamente só se conhecem para umas rapidinhas sem graça, que só envolvem os órgãos genitais.

Nesse momento, enquanto confabulava sobre a minha inexistente vida sexual, já brincava com meus dedos em minha pepeka que está bem molhada. Me contorço toda, imaginando que estou fazendo sexo a três. Viajo e volto umas três vezes. Gemo alto, brincando cada vez mais forte com os dedos, que entram e saeam de mim com mais facilidade.

Depois dos dedos, o vibrador entrou em ação. Era o momento do ápice. Do gozo magistral de mim para mim mesma. Estar com a gente era uma excitante opção para essas noites frias. É possível se dar prazer e é maravilhoso. Orgasmos deliciosos. Entrei em transe, não sabia mais onde estava. Suei e fui do frio ao calor. Estava suando. Gritei!

Depois que terminei respirei fundo e abri os olhos. A TV ainda estava ligada. Uma senhorinha ensinava os telespectadores a bater um bolo. Sorri e balancei a cabeça, abismada com a ironia daquela situação.  Mas me sentia mais leve. Desliguei a TV, me enrolei no edredom e fechei os olhos, dessa vez para dormir.



Rafaela Valverde

Minha poesia

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Ainda tenho um poema
Desde aquela manhã
Sem fórmula, sem teorema
Só o que chegar na mente
Sobre o que eu senti quando
o sol daquele dia nasceu.
Meu peito ainda sente
O ardor daquele momento
Em que minha resistência morreu
Ainda tenho algumas rimas
Mesmo que não sejam boas
Dessa coisa que me alucina
E me faz rir à toa
Rimas sem harmonia
Versos desarrumados
É essa minha poesia
Apenas regular
Não sou nenhuma gênia
do poema.
Sei que muitas vezes vou falhar.
Mas eu só quero dizer o que sinto
Lançar para os quatro cantos do mundo
Para que eles vejam o quanto é bonito.




Rafaela Valverde

O beijo


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Foi um beijo rápido e simples
Daquele que ninguém dá nada
Esperado por anos
Uma longa jornada

Já o tinha imaginado
Pensei em como seria
Me derreti toda
E enfim chegou esse dia

O dia mágico
Em que se realizou
O beijo tão esperado
O seu beijo

Que agora é nosso
E ninguém pode tomar
A cabeça ainda está girando
Parece que vou ter um troço

Foi só o primeiro
Espero que hajam mais
Daqueles tais...
Que pegam fogo

Que iluminam noites
Que causam terremotos
Invadem meu corpo
E enchem de energia o que estava sem vida, oco e vazio.




Rafaela Valverde



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Discurso - Cecília Meireles

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E aqui estou, cantando.
Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?



Rafaela Valverde

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Suas promessas

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Você nunca foi bom de promessas, eu sei
Foi embora na primeira oportunidade
Mesmo depois de dizer que não iria
O que você falava era lei
Hoje não acredito mais em ninguém.

Queria reaver minha capacidade
De novamente acreditar
Em alguém que não ria
E que valha um vintém

Você sempre vai falar o que não devia
Promessas, palavras, histórias vazias.
Essas rimas baratas estão bem aquém
Do que antes eu fazia!

Antes das suas promessas
Antes de descumprir as que nem chegou a fazer
Antes de me deixar vazia, oca e envolvida em desespero
Você nunca foi bom de promessas
Eu sei

E nossas horas eu já parei de rimar
Não dá mais
A inspiração não vem
Você me viu em prantos e prometeu
Que eu não ia mais chorar

Você mentiu
Você é péssimo com promessas
Você não sabe amar
Você não sabe nada
Você não presta pra nada, eu sei.




Rafaela Valverde

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Saber viver - Cora Coralina

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Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar


Rafaela Valverde
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